Não. O arminianismo é uma maneira de entender como a graça de Deus e a resposta humana se relacionam na salvação. Cristãos que levam a Bíblia a sério discordam sobre esse assunto, mas a discordância, por si só, não faz de uma posição uma heresia.
A questão principal é esta: se ninguém pode ser salvo sem a graça de Deus, por que algumas pessoas creem em Cristo e outras o rejeitam? O arminianismo responde que Deus toma a iniciativa e dá às pessoas a graça necessária pra responder ao evangelho, mas que essa graça pode ser rejeitada. O calvinismo também ensina que a salvação começa em Deus, mas entende de outra forma como ele leva à fé aqueles que escolheu salvar.
É importante não confundir o arminianismo com a ideia de que alguém consegue salvar a si mesmo. Em geral, os arminianos afirmam que o pecado afetou profundamente a humanidade e que ninguém chega a Cristo sem a ação de Deus. Eles chamam de *graça preveniente* a graça pela qual Deus torna possível essa resposta. O termo não aparece na Bíblia; ele é usado pra explicar como entendem passagens que mostram tanto a necessidade da ação divina quanto o chamado dirigido às pessoas para que creiam. Jesus, por exemplo, diz que ninguém pode vir a ele se o Pai não o trouxer (João 6:44). Ao mesmo tempo, o evangelho chama as pessoas ao arrependimento e à fé (Marcos 1:15; Atos 17:30).
Arminianos também costumam entender que Deus escolhe para a salvação aqueles que ele sabe que crerão em Cristo. Calvinistas entendem que a escolha de Deus não depende da fé que ele prevê; para eles, a própria fé é resultado dessa escolha. Os dois lados procuram explicar textos bíblicos sobre a eleição, como Efésios 1:4-5 e Romanos 8:29-30, mas discordam sobre como essas passagens se relacionam com a resposta humana.
Outra diferença está no alcance da morte de Cristo. Arminianos afirmam que Cristo morreu por todos e que seus benefícios são recebidos por quem crê, recorrendo, entre outras passagens, a 1 João 2:2 e 1 Timóteo 2:3-6. Há ainda uma discussão sobre se um verdadeiro cristão pode abandonar a fé de modo definitivo e perder a salvação. Muitos arminianos dizem que sim, com base nas advertências bíblicas à perseverança, como Hebreus 3:12-14. Outros arminianos defendem a segurança eterna. Portanto, nem todo arminiano responde da mesma forma a essa última questão.
Essas diferenças são importantes e merecem ser examinadas à luz das Escrituras. Mas chamar uma interpretação de “heresia” é uma acusação mais grave do que dizer “não concordo com ela” ou mesmo “creio que ela interpreta mal certos textos”. O centro da mensagem cristã é que somos salvos pela graça de Deus, por meio da fé em Jesus Cristo, e não por merecimento próprio (Efésios 2:8-9). O arminianismo histórico não nega isso.
Assim, é possível considerar alguns argumentos arminianos pouco convincentes sem tratar irmãos arminianos como pessoas que abandonaram a fé cristã. A pergunta mais útil não é se o nome “arminianismo” deve encerrar a conversa, mas se cada ensino específico explica bem o que a Bíblia diz — sem diminuir nem a graça de Deus, nem a responsabilidade humana.