Essa é uma das ordens mais difíceis de ler na Bíblia. O contexto explica por que Israel entrou em guerra contra os midianitas, mas não torna fácil aceitar a morte das crianças. É importante dizer as duas coisas com honestidade.
Pouco antes, em Números 25, israelitas haviam se envolvido com mulheres de Moabe e de Midiã e passado a participar do culto a Baal-Peor. A infidelidade trouxe um julgamento severo sobre Israel. Depois, Deus mandou Moisés executar uma ação de julgamento contra os midianitas envolvidos naquele episódio (Números 25:16-18; 31:1-3). Números 31:16 acrescenta que mulheres midianitas haviam participado da tentativa de levar Israel a pecar, seguindo o conselho de Balaão.
Quando o exército voltou da batalha, porém, Moisés viu que os soldados tinham trazido as mulheres e as crianças como prisioneiras. Ele então ordenou a morte das mulheres que haviam tido relações sexuais e de todos os meninos; as meninas foram poupadas (Números 31:14-18). Aqui há uma distinção importante: Deus ordenou o julgamento contra os midianitas, mas a ordem específica de Números 31:17 é apresentada como uma fala de Moisés. O texto não registra Deus dando, em separado, essa instrução sobre os meninos.
Por que Moisés incluiu os meninos? A passagem não explica. É possível que ele tenha entendido que deixar vivos os descendentes homens daquele grupo prolongaria o conflito. Mas isso é uma tentativa de compreender a decisão, não uma razão que a Bíblia declara. Também não seria correto dizer que aqueles meninos tinham participado do pecado de Baal-Peor, nem afirmar que sabemos o que fariam quando crescessem.
A expressão “destruir completamente os midianitas” também precisa de cuidado. Números 31 descreve uma campanha contra determinado grupo midianita, não o fim de todo o povo de Midiã. Midianitas aparecem novamente mais tarde na história bíblica, inclusive em Juízes 6.
Podemos, então, entender o motivo da guerra: ela está ligada ao episódio de Baal-Peor e é apresentada como julgamento divino. Mas a Bíblia não nos dá uma explicação completa que resolva a dificuldade moral da ordem sobre os meninos. Não precisamos fingir que a morte deles é fácil de compreender, nem inventar que morrer cedo foi melhor pra eles. Deus conhece o destino de cada pessoa; nós não recebemos essa informação sobre aquelas crianças.
Por fim, Números 31 não autoriza ninguém hoje a matar em nome de Deus. Trata-se de um episódio específico da história de Israel, não de uma ordem dada aos cristãos. Jesus ensinou seus seguidores a amar os inimigos e a não revidar a violência com violência (Mateus 5:44; 26:52). A resposta mais fiel ao texto é, portanto, reconhecer o julgamento descrito ali, distinguir o que Deus ordenou do que Moisés disse e admitir com humildade aquilo que a passagem não explica.