A igreja não recebeu uma lista pronta dos livros do Novo Testamento. Os textos foram escritos ao longo do primeiro século, enviados a pessoas e comunidades diferentes e, depois, copiados e compartilhados entre as igrejas. Com o tempo, surgiu uma pergunta importante: entre os escritos que circulavam, quais deveriam ser recebidos como autoridade pra todos os cristãos?
Cânone é o nome dado ao conjunto desses livros. Na compreensão cristã, a igreja não tornou certos escritos inspirados por meio de uma votação. Ela procurou reconhecer os escritos que Deus havia dado por meio dos apóstolos e das pessoas ligadas a eles. Esse reconhecimento levou tempo, mas não começou séculos depois, numa reunião que escolheu livros desconhecidos até então.
Os cristãos antigos davam especial atenção à ligação de um escrito com os apóstolos, a quem Jesus confiou a tarefa de testemunhar a respeito dele (Atos 1:21-22). Algumas cartas vinham de apóstolos, como Paulo e Pedro. Outros livros estavam ligados a pessoas próximas deles. Lucas, por exemplo, explica que investigou os acontecimentos e se baseou no testemunho de quem os presenciou (Lucas 1:1-4). Isso não significa que a autoria de todos os livros fosse igualmente fácil de estabelecer. A carta aos Hebreus, por exemplo, não identifica seu autor, e sua aceitação foi discutida em algumas regiões.
Também importava o que o escrito ensinava. Um livro que atribuísse a Jesus ou aos apóstolos um ensino contrário à mensagem que as igrejas já haviam recebido seria visto com desconfiança. Os primeiros cristãos conheciam essa mensagem antes de existir um Novo Testamento reunido num só volume: ela era ensinada nas igrejas, e as cartas apostólicas circulavam entre elas (Colossenses 4:16). Isso não quer dizer que todos concordassem imediatamente sobre cada livro, mas mostra por que uma obra tardia, mesmo usando o nome de um apóstolo, não seria aceita apenas por causa do título.
Por fim, a igreja observava como esses escritos eram recebidos em diferentes lugares. Alguns eram lidos e reconhecidos amplamente desde cedo; sobre outros, como 2 Pedro e Apocalipse, houve dúvidas em certas comunidades. Um texto podia ser útil pra ensinar sem, por isso, fazer parte do cânone.
A concordância sobre os 27 livros foi se tornando mais clara com o passar do tempo. Em 367, Atanásio, líder cristão de Alexandria, registrou a lista completa dos 27 livros que conhecemos hoje. Concílios regionais em Hipona, em 393, e Cartago, em 397, também confirmaram essa lista. Essas reuniões foram importantes, mas não criaram os livros nem iniciaram seu uso nas igrejas.
Portanto, o processo não foi uma escolha repentina entre textos que tinham todos a mesma autoridade. Foi um reconhecimento gradual, com discussões reais sobre alguns livros, de escritos ligados ao testemunho apostólico e recebidos pelas igrejas. Para os cristãos, essa história faz parte da confiança de que Deus preservou pra sua igreja os escritos que dão testemunho de Jesus e ensinam sua mensagem.