A neo-ortodoxia é um movimento da teologia protestante que surgiu no começo do século 20, especialmente depois da Primeira Guerra Mundial. Seu nome significa “nova ortodoxia”. Entre seus principais representantes estão Karl Barth e Emil Brunner.
Pra entender por que ela surgiu, vale conhecer a ideia à qual ela reagia. Muitos teólogos liberais daquela época tinham grande confiança na capacidade humana de progredir moralmente. A guerra, com sua violência em enorme escala, tornou difícil manter esse otimismo. Teólogos como Barth passaram a insistir em algo que consideravam esquecido: o ser humano é pecador e não consegue chegar a Deus por seus próprios esforços. Deus é quem toma a iniciativa de se revelar, e Jesus Cristo está no centro dessa revelação.
Isso explica tanto a aproximação quanto a diferença entre a neo-ortodoxia e o cristianismo evangélico tradicional. Ambos dão grande importância a Cristo e levam o pecado a sério. Uma diferença importante aparece quando perguntamos: o que é a Bíblia?
Na compreensão evangélica tradicional, a Bíblia é a Palavra de Deus escrita. Deus a deu por meio de autores humanos, sem apagar a personalidade e a maneira de escrever de cada um. Não é preciso imaginar que esses autores escreveram como máquinas ou que receberam cada frase por ditado. Textos como 2 Timóteo 3:16-17 e 2 Pedro 1:20-21 fundamentam a convicção de que as Escrituras vêm de Deus e têm autoridade pra ensinar a fé.
Barth também tratava a Bíblia com seriedade, mas fazia uma distinção. Pra ele, Jesus Cristo é a Palavra de Deus em sentido principal; a Bíblia é o testemunho humano por meio do qual Deus nos fala sobre Cristo. Por isso, na sua teologia, a Bíblia não é identificada com a revelação divina da mesma maneira que na posição evangélica tradicional. Barth reconhecia a possibilidade de erros nos escritos bíblicos. Ao mesmo tempo, seria injusto dizer que ele via a Bíblia como um livro qualquer ou que achava irrelevante o que ela ensina.
É aí que está a principal preocupação de muitos evangélicos. Se a Bíblia é tratada como um testemunho humano que pode errar, como reconhecer com segurança quais ensinamentos dela devem orientar nossa fé? Essa pergunta importa porque o próprio Novo Testamento liga a fé em Cristo a acontecimentos e ensinamentos concretos. Paulo apresenta a morte e a ressurreição de Jesus como parte essencial do evangelho, não apenas como uma experiência interior do cristão (1 Coríntios 15:3-4).
Também é importante não confundir a neo-ortodoxia inteira com algumas descrições simplificadas dela. Ela não ensina simplesmente que pecado é tratar mal as pessoas, nem que salvação é apenas fazer o bem ou ter uma experiência pessoal. Barth, por exemplo, deu grande importância ao pecado humano e à ação de Deus pra nos salvar em Cristo. Há diferenças entre os teólogos desse movimento, e suas ideias não cabem todas numa única fórmula.
Em poucas palavras, a neo-ortodoxia tentou recuperar a seriedade do pecado e a centralidade de Jesus Cristo diante de uma teologia excessivamente confiante no ser humano. A diferença mais importante pra quem parte da fé evangélica tradicional está na autoridade da Bíblia: a neo-ortodoxia a valoriza como testemunho de Cristo, mas não a entende, do mesmo modo, como a Palavra de Deus escrita e plenamente confiável.