Mateus e Lucas contam partes diferentes da história do nascimento de Jesus. Isso, por si só, não é uma contradição. Seria uma contradição se um afirmasse que algo aconteceu e o outro afirmasse que não aconteceu. Em muitos pontos, porém, um evangelho apenas conta o que o outro não contou.
Os dois dizem que Maria concebeu Jesus antes de viver com José como marido e mulher e que Jesus nasceu em Belém (Mateus 1:18-25; 2:1; Lucas 1:26-35; 2:4-7). Lucas explica por que José e Maria foram até lá, fala dos pastores e conta que levaram o menino ao templo em Jerusalém. Mateus fala dos magos, da ameaça de Herodes e da fuga da família pro Egito. Lucas não dizer nada sobre o Egito não significa que esteja negando a viagem.
A dificuldade maior está no momento em que a família foi morar em Nazaré. Lucas diz que, depois de cumprirem o que a Lei exigia, José e Maria voltaram pra Nazaré (Lucas 2:39). Mateus diz que, após a morte de Herodes, eles saíram do Egito e foram morar em Nazaré (Mateus 2:19-23). Lucas não menciona nenhuma viagem entre a visita ao templo e a volta pra Nazaré, e é compreensível que o leitor imagine uma volta direta. Mas ele também não diz que voltaram *imediatamente*.
É possível, portanto, que a visita ao templo tenha ocorrido primeiro; depois, a família tenha estado em Belém quando os magos chegaram, fugido pro Egito e, mais tarde, ido pra Nazaré. Mateus diz que os magos encontraram Jesus numa casa, não na manjedoura mencionada por Lucas (Mateus 2:11; Lucas 2:7). Essa sequência permite entender os dois relatos juntos, embora os evangelhos não deem datas suficientes pra reconstruir cada passo com certeza. Também não sabemos por que a família estaria em Belém naquele momento; afirmar que José encontrou trabalho ali, por exemplo, seria ir além do que o texto diz.
Há ainda uma diferença nas genealogias: Mateus chama o pai de José de Jacó, enquanto Lucas associa José a Eli (Mateus 1:16; Lucas 3:23). Uma explicação conhecida é que Lucas apresenta a família de Maria e Mateus, a de José. É uma possibilidade, mas Lucas não diz expressamente que está fazendo isso. Não seria honesto tratar essa solução como um fato comprovado.
Então, os relatos não apresentam uma contradição necessária nos acontecimentos do nascimento de Jesus. Eles podem ser lidos como relatos que se completam. Ao mesmo tempo, algumas perguntas sobre a sequência dos fatos e as genealogias continuam sem uma resposta explícita nos textos. Dá pra reconhecer isso sem concluir que um dos evangelistas negou o que o outro escreveu.