Essa pergunta é justa. Ninguém escolhe nascer com uma inclinação ao pecado. Então, à primeira vista, parece errado que Deus nos cobre por algo que já estava em nós antes de podermos decidir qualquer coisa. A Bíblia leva essa dificuldade a sério. Ela ensina que o pecado nos afeta desde o começo da vida, mas também que Deus não nos julga como se nossas próprias escolhas não importassem.
Quando Davi diz que era pecador desde o nascimento (Salmo 51:5), ele não está dizendo que sua mãe fez algo errado ao concebê-lo. Ele está reconhecendo que o pecado não começou nele apenas no dia em que cometeu um erro. Há algo errado na condição humana. Paulo liga essa condição a Adão: por meio da desobediência dele, o pecado entrou no mundo, e a morte passou a fazer parte da vida humana (Romanos 5:12).
Isso explica por que não começamos a vida moralmente neutros. Mas não significa que pecamos apenas porque fomos obrigados a isso, contra a nossa vontade. Na prática, nós também queremos coisas erradas, fazemos escolhas erradas e causamos mal a outras pessoas. Paulo diz que todos pecaram (Romanos 3:23). Nossa culpa, portanto, não é apenas uma questão sobre o que aconteceu com Adão; envolve também aquilo que nós mesmos fazemos.
Ainda assim, sobra uma pergunta difícil: é justo herdarmos as consequências da desobediência de Adão? Cristãos que reconhecem a autoridade da Bíblia entendem esse ponto de maneiras diferentes. Alguns creem que Adão representou a humanidade e que sua culpa também nos alcança. Outros entendem que herdamos dele uma humanidade afetada pelo pecado e pela morte, mas distinguem isso da culpa por pecados que cada pessoa comete. Romanos 5 é central nessa discussão. O que não convém é tratar cada detalhe dessa questão como se a Bíblia o explicasse sem deixar nenhuma dificuldade.
Uma coisa, porém, fica clara: Deus não julga de maneira descuidada ou injusta. Ele conhece plenamente cada pessoa, inclusive o que ela recebeu, o que sabe e o que fez. A Bíblia afirma que ele julga com justiça (Gênesis 18:25; Romanos 2:6-16). Por isso, reconhecer que nascemos numa condição marcada pelo pecado não exige concluir que Deus nos condena por atos que não praticamos, ignorando nossa vida e nossas escolhas.
E a resposta bíblica não termina no julgamento. No mesmo capítulo em que Paulo fala do que veio por meio de Adão, ele fala do que Deus oferece por meio de Jesus Cristo (Romanos 5:15-19). Jesus não veio apenas nos dizer que devemos ser melhores. Ele morreu e ressuscitou para que pecadores possam ser perdoados e recebam uma vida nova pela fé nele.
Assim, a Bíblia não apresenta Deus como alguém que nos prepara para fracassar e depois se satisfaz em nos punir. Ela mostra a seriedade do pecado — tanto da condição humana quanto dos nossos próprios atos — e mostra também que Deus tomou a iniciativa de oferecer, em Cristo, o perdão que não conseguiríamos conquistar sozinhos.