Narcigese é ler a Bíblia como se ela falasse, antes de tudo, de nós mesmos. A pessoa parte da própria vida, de seus desejos ou de suas opiniões e acaba dando ao texto um sentido que ele não tinha. A palavra junta a ideia de *narcisismo*, que é atenção excessiva a si mesmo, com *eisegese*, que é colocar as próprias ideias dentro de um texto ao interpretá-lo.
Isso não quer dizer que seja errado perguntar: “O que essa passagem ensina pra minha vida?” Essa é uma boa pergunta. O cuidado está em entender primeiro o que a passagem diz. Só depois podemos pensar em como viver aquilo hoje.
Veja a história de Davi e Golias, em 1 Samuel 17. Alguém pode lê-la e concluir: “Eu sou Davi, e qualquer dificuldade que eu enfrente é Golias. Portanto, Deus vai me dar a vitória que deu a ele.” Mas o relato não faz essa promessa a todo leitor. Ele conta o que Deus fez naquele momento por meio de Davi, quando Israel estava diante de um inimigo. A história pode, sim, nos ensinar a confiar em Deus diante do medo. Isso é diferente de dizer que ela garante que toda situação difícil terminará do jeito que esperamos.
A narcigese aparece quando esse passo é ignorado. Em vez de perguntar quem estava envolvido, o que aconteceu e por que aquilo foi registrado, a pessoa escolhe imediatamente o papel que gostaria de ter na história. Também pode tratar toda promessa bíblica como se tivesse sido feita diretamente a ela, sem considerar a quem Deus falou e em que situação. Desse jeito, é fácil encontrar no texto uma confirmação pra algo que já se queria acreditar.
A Bíblia fala conosco, mas não foi escrita *sobre* cada um de nós. Seus livros contam como Deus agiu na história, o que ensinou ao seu povo e como cumpriu seus propósitos em Jesus Cristo. O próprio Jesus mostrou aos discípulos que as Escrituras apontavam pra ele (Lucas 24:27, 44-45; João 5:46). Isso não significa que toda passagem mencione Jesus diretamente, nem que nossa vida não importe. Significa que precisamos respeitar o assunto de cada texto e o lugar que ele ocupa na mensagem da Bíblia.
Então, uma maneira simples de evitar a narcigese é fazer duas perguntas, nessa ordem: “O que essa passagem está dizendo?” e “O que posso aprender e praticar com ela?” Assim, levamos a Bíblia a sério e deixamos que ela nos ensine, em vez de pedir que ela apenas confirme o que já pensamos.