Essa frase não quer dizer que um líder religioso esteja acima de críticas. No contexto em que aparece, ela fala de como Deus cuidou de Abraão, Isaque e Jacó, os antepassados do povo de Israel.
Em 1 Crônicas 16:15-22 e no Salmo 105:8-15, o povo relembra a promessa que Deus tinha feito àquela família. Na época, eles eram poucos, viviam como estrangeiros e passavam de uma terra pra outra. Mesmo assim, Deus não deixou que reis acabassem com a família por meio da qual cumpriria sua promessa. É nesse relato que aparece a advertência para não tocar nos seus ungidos nem fazer mal aos seus profetas.
Ali, “ungidos” são pessoas que Deus havia escolhido para um propósito, não uma classe de pregadores que ninguém pode questionar. Abraão, por exemplo, é chamado de profeta em Gênesis 20:7. A frase fala da proteção de Deus sobre aquela família naquele período da sua história. Não é uma promessa de que toda pessoa escolhida por Deus jamais sofrerá. Os próprios profetas foram perseguidos, e Jesus avisou que alguns de seus enviados seriam mortos (Lucas 11:49).
Existe uma situação parecida na vida de Davi, mas ela também precisa ser entendida com cuidado. Saul tentava matá-lo. Quando Davi teve a oportunidade de matar Saul, recusou-se, pois Saul havia sido escolhido por Deus para ser rei (1 Samuel 26:9-11). Davi se recusou a matar Saul; não fingiu que Saul estava agindo corretamente. Respeitar a vida de alguém não significa aprovar seus erros ou deixar de falar a verdade sobre eles.
Por isso, nenhum pastor ou pregador pode usar “não toque no ungido de Deus” pra impedir que suas palavras e atitudes sejam examinadas. A Bíblia orienta os cristãos a avaliar o que ouvem (Atos 17:11; 1 João 4:1). E, quando um líder peca, há orientações pra lidar com isso de maneira séria e justa, sem acusações levianas nem proteção indevida (1 Timóteo 5:19-20).
O Novo Testamento também diz que Deus ungiu os que pertencem a Cristo e lhes deu o Espírito Santo (2 Coríntios 1:21-22; 1 João 2:20). Isso não torna os cristãos incapazes de errar nem imunes ao sofrimento.
Então, a aplicação é simples: não devemos atacar, ameaçar ou acusar alguém sem razão — seja líder religioso ou não. Mas podemos, e às vezes devemos, confrontar um ensino falso ou um pecado comprovado. Na Bíblia, ser escolhido por Deus nunca foi uma licença pra agir sem prestar contas.