Jesus não estava dizendo que devemos aceitar qualquer violência sem procurar ajuda, nem que é errado impedir alguém de fazer o mal. Em Mateus 5:39, ele está ensinando seus discípulos a não revidar uma ofensa por vingança. A diferença é importante: proteger uma pessoa e buscar justiça não são a mesma coisa que querer fazer o ofensor sofrer porque ele nos feriu.
Pra entender a fala de Jesus, vale olhar o que ele diz logo antes. Em Mateus 5:38-42, ele menciona a antiga regra do “olho por olho, dente por dente”. Essa regra fazia parte da lei dada a Israel e estabelecia um limite pra punição: ela não deveria ser maior que o dano causado (Êxodo 21:23-25). Jesus, porém, está falando com pessoas que poderiam usar a ideia de justiça como desculpa pra acertar contas pessoalmente. Por isso, ele dá exemplos de insultos e prejuízos sofridos e ensina a não responder na mesma moeda.
Um desses exemplos é o tapa no rosto e a orientação de oferecer também a outra face. Jesus não está exigindo que alguém permaneça numa situação de agressão. Ele está mostrando que uma ofensa não precisa ser respondida com outra. Podemos abrir mão de revidar, mesmo quando temos vontade de fazê-lo.
Isso não significa fingir que o mal não aconteceu. Se alguém está em perigo, é certo procurar proteção e ajuda. Se houve um crime, também é possível recorrer à justiça. O próprio Paulo, embora ensinasse os cristãos a não se vingarem, fez uso de seus direitos legais quando foi tratado injustamente (Atos 16:35-39). A orientação de Jesus trata da nossa reação pessoal ao mal, não da obrigação de deixar outras pessoas desprotegidas ou de impedir que a justiça cumpra seu papel.
O restante do ensinamento mostra até onde Jesus queria levar seus discípulos: ele os chama a amar os inimigos e a orar por quem os persegue (Mateus 5:43-45). Isso não torna a atitude do agressor aceitável. Significa que não devemos deixar a maldade dele determinar a maneira como vamos agir. Paulo ensina algo parecido ao dizer que não devemos nos vingar, mas procurar vencer o mal com o bem (Romanos 12:17-21).
Jesus viveu isso. Quando sofreu insultos e foi condenado injustamente, não respondeu com ameaças nem procurou vingança (1 Pedro 2:21-23). Seu exemplo não nos proíbe de buscar segurança ou justiça. Ele nos ensina a fazer isso sem transformar a dor que sofremos em desejo de revanche.