Moisés não estava preocupado com o povo esquecer que Deus existia. O perigo era outro: viver como se não precisasse mais dele. Os israelitas estavam prestes a entrar numa terra onde teriam alimento, casas e rebanhos. Depois de tantos anos no deserto, isso seria motivo de alegria. Mas também poderia levá-los a pensar: “Conseguimos tudo isso sozinhos”.
É por isso que Moisés os adverte em Deuteronômio 8:11-14. Quando estivessem satisfeitos e cercados de bens, não deveriam esquecer o Senhor nem deixar de obedecer aos seus mandamentos. Nesse capítulo, esquecer Deus não é apenas deixar de pensar nele. É parar de reconhecer o que ele fez, deixar de confiar nele e passar a viver sem levar sua palavra em conta.
Moisés lembra ao povo que Deus o tirou da escravidão no Egito e cuidou dele durante a caminhada pelo deserto. Até as dificuldades daquele período tinham ensinado Israel a depender do Senhor (Deuteronômio 8:2-5). Na nova terra, eles trabalhariam e colheriam os resultados do seu esforço. O erro não seria trabalhar nem desfrutar do que recebessem. O erro seria concluir que sua força, por si só, explicava tudo. Moisés diz que até a capacidade de produzir riqueza vinha de Deus (Deuteronômio 8:17-18).
Essa ordem, portanto, envolvia gratidão e obediência. Lembrar-se do Senhor era reconhecer seu cuidado e continuar seguindo o que ele havia ensinado. Moisés também avisa que, se o povo o esquecesse, poderia passar a servir outros deuses. Para Israel, isso teria consequências graves: a prosperidade não o protegeria do juízo anunciado por Deus caso abandonasse a aliança com ele (Deuteronômio 8:19-20).
Essa advertência também nos faz pensar na maneira como lidamos com os tempos bons. É natural pedir ajuda a Deus quando falta alguma coisa. Quando tudo vai bem, porém, podemos começar a tratar o que temos como algo garantido e deixar de ouvir o que ele diz. Lembrar-se do Senhor não exige pensar nele a cada instante. Significa não tirar Deus das decisões da vida: agradecer pelo que recebemos, reconhecer que dependemos dele e obedecer à sua palavra, inclusive quando estamos confortáveis.
Assim, a ordem de Moisés não é contra a prosperidade. É um alerta pra não deixar que as bênçãos nos façam esquecer quem nos sustenta.