Um cristão pode reconhecer algo importante no #MeToo: muitas pessoas sofreram assédio ou violência sexual, e algumas só conseguiram falar depois de perceber que não estavam sozinhas. Ouvir essas pessoas e levar o que dizem a sério combina com a fé cristã. Ninguém deve ser tratado como culpado pelo abuso que sofreu, nem pressionado a ficar em silêncio para proteger a reputação de uma família, igreja ou liderança.
A Bíblia ensina que todo ser humano tem dignidade, pois foi criado à imagem de Deus (Gênesis 1:27). Jesus manda amar o próximo e tratá-lo como gostaríamos de ser tratados (Mateus 7:12; Marcos 12:31). Por isso, usar uma posição de poder para constranger, explorar ou agredir alguém é incompatível com a vida cristã. E proteger quem foi ferido não é uma preocupação secundária: as Escrituras chamam o povo de Deus a defender os vulneráveis e a agir com justiça (Salmo 82:3-4).
Isso não significa que um cristão precise concordar com toda opinião expressa por pessoas ligadas ao movimento. O #MeToo reúne pessoas com crenças e propostas diferentes. É possível apoiar seu objetivo de combater o abuso sem assumir todas as posições de quem usa essa expressão. Também é possível reconhecer o valor de uma denúncia pública sem achar que uma publicação na internet, por si só, resolve o problema.
Na prática, a resposta cristã precisa ir além de dizer que se importa. Se alguém contar que sofreu abuso, o primeiro passo é ouvir com respeito, cuidar da segurança dessa pessoa e ajudá-la a encontrar apoio adequado. Conforme a situação, isso pode incluir atendimento médico, apoio psicológico e contato com as autoridades. Uma igreja não deve tentar resolver internamente um possível crime, nem substituir uma investigação por uma conversa pastoral. Ao mesmo tempo, é preciso apurar os fatos com responsabilidade, sem espalhar acusações como se já tivessem sido comprovadas.
Isso vale especialmente quando a pessoa acusada é um líder religioso. A posição dela não pode servir de desculpa pra ignorar uma denúncia. A igreja deve proteger quem está em risco, cooperar com as autoridades e agir com transparência e justiça. Pedir que a vítima perdoe não pode ser uma maneira de impedir que ela busque proteção ou responsabilização.
Portanto, a pergunta principal não é se o cristão deve apoiar uma hashtag sem reservas. É se ele está disposto a fazer o que sua fé exige diante do abuso: ouvir quem sofreu, proteger os vulneráveis, buscar a verdade e agir com justiça.