Paulo está falando de abandonar práticas pecaminosas. “Obras do corpo” não quer dizer que o corpo seja mau. Ele fala do pecado que aparece no que fazemos com o corpo: por exemplo, usar a boca pra mentir ou ferir alguém, ou agir de acordo com desejos que sabemos ser contrários à vontade de Deus. Fazer essas obras morrerem é deixar de alimentá-las e combatê-las em vez de aceitá-las como parte inevitável da vida.
A palavra mais importante em Romanos 8:13 é “pelo Espírito”. Paulo não diz que vencemos o pecado só com força de vontade. Ele também não diz que devemos esperar sem fazer nada, como se o Espírito fosse tomar todas as decisões por nós. Nós agimos, mas dependemos da ajuda que Deus nos dá por meio do seu Espírito.
Isso fica mais claro quando lemos o trecho todo. Em Romanos 8:12-14, Paulo contrasta dois caminhos: viver segundo a carne e ser guiado pelo Espírito. “Carne”, aqui, não significa simplesmente o corpo físico. É a maneira de viver dominada pelo pecado, como se Deus não tivesse direito de orientar nossas escolhas. Por isso, não devemos pensar: “Sou assim mesmo; não posso fazer nada”. Quem pertence a Cristo recebeu uma nova vida, e o Espírito o chama a lutar contra aquilo que antes o dominava.
Como essa luta acontece no dia a dia? Começa quando reconhecemos um pecado sem desculpá-lo. Se percebo que tenho mentido, por exemplo, não basta sentir culpa e prometer vagamente que vou melhorar. Preciso falar a verdade, corrigir o que for possível e deixar de buscar as vantagens que a mentira me dava. Se alimento um desejo errado, preciso parar de lhe dar espaço. Em Colossenses 3:5-10, Paulo usa a mesma ideia de fazer morrer o pecado e a aplica tanto a desejos sexuais errados e à ganância quanto à ira, às palavras ofensivas e à mentira. Nenhuma dessas coisas deve ser tratada como algo que podemos conservar sem problema.
Ao mesmo tempo, combater o pecado não é apenas dizer “não”. Em Romanos 6:13, Paulo ensina os cristãos a não colocar o corpo a serviço do pecado, mas a oferecê-lo a Deus. A mesma boca que deixava de mentir pode passar a falar a verdade com amor. A pessoa que agia movida pela ira pode aprender a responder com paciência. O Espírito não apenas nos ajuda a abandonar o que é errado; ele produz em nós um modo novo de viver. Gálatas 5:16, 22-23 liga essa vida guiada pelo Espírito a qualidades como amor, domínio próprio e paciência.
Por isso, vale a pena levar a luta a Deus em oração, ouvir o que ele ensina nas Escrituras e permanecer perto de outros cristãos que possam nos encorajar e, quando necessário, nos corrigir (Hebreus 10:24-25; Gálatas 6:1-2). Essas coisas não substituem a ação do Espírito nem garantem uma vida sem tropeços. Elas nos ajudam a seguir sua direção quando precisamos tomar decisões concretas.
O aviso de Romanos 8:13 é sério: viver segundo a carne leva à morte; fazer morrer as obras do corpo pelo Espírito está ligado à vida. Paulo não está ensinando que uma pessoa compra a salvação por conseguir vencer todos os pecados. Tampouco devemos enfraquecer o aviso como se o pecado não tivesse importância. Ele está mostrando que a vida recebida de Deus não combina com uma entrega tranquila ao pecado.
Essa mudança não se completa de uma vez. O cristão ainda precisa lutar, arrepender-se quando cai e continuar seguindo a direção do Espírito. Mortificar as obras do corpo é justamente isso: pela ajuda de Deus, deixar de obedecer ao pecado e aprender, em escolhas reais, a viver como filho dele.