Não existe um jeito certo de sofrer a morte de um filho. Alguns pais choram muito; outros ficam sem conseguir chorar. Há quem queira falar sobre o filho o tempo todo e quem, por um período, não consiga dizer seu nome sem se sentir sobrecarregado. Nada disso, por si só, indica falta de fé. Perder um filho é uma dor profunda, e os pais não precisam fingir que estão bem pra demonstrar confiança em Deus.
A Bíblia não oferece um prazo pra essa dor passar. Ela mostra, porém, que é possível levar a Deus até aquilo que não conseguimos explicar. Os salmos estão cheios de orações feitas em meio ao sofrimento. E Jesus chorou diante da morte de Lázaro, mesmo sabendo que o ressuscitaria (João 11:33-35). Chorar não é o contrário de ter esperança. É uma resposta humana à perda de alguém amado.
Davi também viveu a morte de um filho pequeno. Enquanto a criança estava doente, ele orou e jejuou, pedindo que Deus a poupasse. Depois que ela morreu, Davi se levantou, se alimentou e adorou a Deus (2 Samuel 12:16-23). Isso não quer dizer que ele deixou de sentir tristeza de repente, nem que outros pais devam reagir do mesmo modo. Mostra que Davi pôde pedir pela vida do filho enquanto havia esperança de recuperação e, depois da morte, precisou enfrentar uma realidade que não podia mudar. Os pais podem orar com toda a sinceridade, inclusive perguntando “por quê?”, sem achar que precisam encontrar uma explicação antes de continuar vivendo.
Uma pergunta especialmente difícil é: “Vou ver meu filho de novo?” Ao falar da criança que morreu, Davi disse que um dia iria até ela, mas ela não voltaria até ele (2 Samuel 12:23). Muitos cristãos entendem essa fala como um sinal de esperança de reencontro. É importante, porém, não dizer mais do que o texto diz: a passagem não explica claramente onde a criança estava, nem estabelece uma “idade de responsabilidade” a partir da qual alguém passaria a responder por seus pecados. A Bíblia não define essa idade.
Ainda assim, os pais podem confiar no caráter de Deus. Ele é justo e misericordioso; não trata ninguém com crueldade ou erro (Gênesis 18:25; Salmo 103:8). Muitos cristãos, por isso, têm a esperança de que bebês e crianças pequenas que morrem sejam acolhidos por ele. Essa esperança pode ser apresentada com carinho, sem transformá-la numa explicação detalhada que a Bíblia não dá.
No dia a dia, lidar com a perda costuma exigir ajuda. Vale dizer a familiares, amigos e irmãos da igreja do que vocês precisam — companhia, uma refeição, ajuda com tarefas ou simplesmente alguém que escute. Também pode fazer bem falar sobre o filho, guardar suas lembranças e permitir que outras pessoas mencionem seu nome. Se há outros filhos, eles também precisam de atenção: podem sentir saudade do irmão e, ao mesmo tempo, ficar assustados ao ver os pais sofrendo. Buscar apoio profissional, especialmente quando a dor impede por muito tempo os cuidados básicos ou vem acompanhada de desespero intenso, não é sinal de pouca fé.
Não há data marcada pra “superar” a morte de um filho. Aniversários, festas e outras ocasiões podem trazer a saudade com força, mesmo depois de muitos anos. Com o tempo, alguns dias podem ficar mais suportáveis, mas isso não diminui o amor pelo filho nem obriga os pais a esquecê-lo.
A esperança cristã não é a promessa de que a dor acabará rapidamente. É a promessa de que a morte não terá a última palavra. Por meio de Jesus Cristo, Deus promete um futuro em que não haverá mais morte, luto nem sofrimento (João 11:25-26; Apocalipse 21:4). Até lá, pais enlutados podem chorar, receber cuidado e confiar em Deus um dia de cada vez.