Os dois relatos dizem coisas diferentes, mas não falam com a mesma autoridade sobre o que aconteceu. Em 1 Samuel 31:3-6, o narrador conta que Saul foi ferido durante a batalha contra os filisteus. Com medo de ser capturado, pediu ao seu escudeiro que o matasse. O escudeiro não quis. Então Saul se lançou sobre a própria espada. Ao vê-lo morto, o escudeiro também tirou a própria vida.
Já em 2 Samuel 1:6-10, não é o narrador que diz ter visto a morte de Saul. O texto registra o que um amalequita contou a Davi: segundo ele, Saul ainda estava vivo e lhe pediu que o matasse. O homem também entregou a Davi a coroa e o bracelete de Saul.
Essa diferença é importante. A Bíblia pode registrar fielmente as palavras de alguém sem afirmar que essas palavras são verdadeiras. Ter os objetos de Saul mostrava que o amalequita havia tido acesso a eles; não provava que ele tivesse matado o rei. Além disso, 1 Crônicas 10:4-5 volta a contar que Saul se lançou sobre a própria espada, confirmando o relato de 1 Samuel 31.
Por isso, a explicação mais bem sustentada pelo texto é que Saul tirou a própria vida e o amalequita não contou a verdade sobre sua participação. É possível que ele esperasse receber algum favor de Davi ao se apresentar como responsável pela morte de Saul, mas a Bíblia não revela o que ele estava pensando nem explica como conseguiu os objetos do rei.
Davi reagiu de um jeito que o homem talvez não esperasse. Embora Saul o tivesse perseguido, Davi lamentou sua morte e mandou executar o amalequita. Ao explicar sua decisão, Davi apontou para a confissão do próprio homem: ele havia dito que matou Saul, o rei ungido pelo Senhor (2 Samuel 1:11-16). Isso mostra por que Davi o julgou; não confirma que sua versão fosse verdadeira.
Assim, a dificuldade se esclarece quando percebemos quem está falando em cada passagem. Um texto conta diretamente como Saul morreu. O outro conta o que um homem disse a Davi depois da batalha.