Depende do que se quer dizer com “seita”. Se a palavra for usada como sinônimo de grupo perigoso ou de pessoas mal-intencionadas, ela não ajuda a entender os mórmons e pode ser injusta com eles. Mas, se a pergunta é se o mormonismo ensina a mesma fé cristã histórica, a resposta é não. Apesar de falar de Jesus, da Bíblia e da salvação, ele dá a essas palavras sentidos diferentes em pontos importantes.
O mormonismo começou no século 19 com Joseph Smith. Ele afirmou ter recebido revelações de Deus e que a igreja de Cristo precisava ser restaurada. A igreja fundada a partir de seus ensinamentos é conhecida hoje como A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Seus membros costumam preferir ser chamados de “santos dos últimos dias”, embora muita gente os conheça como “mórmons”.
Eles aceitam a Bíblia, mas também consideram Escrituras o *Livro de Mórmon*, *Doutrina e Convênios* e *Pérola de Grande Valor*. Além disso, creem que Deus continua a orientar sua igreja por meio de profetas vivos. Pra entender a diferença, esse é um bom ponto de partida: quando surge uma questão sobre quem é Deus ou como somos salvos, os santos dos últimos dias não se baseiam apenas nos livros bíblicos.
A diferença mais profunda está em quem Deus é. A fé cristã histórica ensina que existe um só Deus, que sempre existiu e criou todas as coisas. Pai, Filho e Espírito Santo não são três deuses, mas o único Deus (Deuteronômio 6:4; Isaías 43:10; Mateus 28:19). Os santos dos últimos dias, por sua vez, ensinam que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são seres distintos, unidos em propósito. Também ensinam que o Pai tem um corpo glorificado de carne e ossos. Há ensinamentos históricos mórmons sobre a progressão de Deus e sobre seres humanos se tornarem deuses; o modo de explicar esses temas varia, então não seria justo atribuir a cada mórmon todas as formulações já usadas por seus líderes. Ainda assim, a visão mórmon de Deus é diferente da afirmação bíblica de que só ele é Deus e de que sempre o foi (Salmo 90:2; Isaías 44:6-8).
Os mórmons creem que Jesus Cristo é o Salvador, que morreu e ressuscitou. A questão não é, portanto, se eles falam de Jesus, mas quem é Jesus dentro de suas crenças. Para a fé cristã histórica, o Filho não passou a ser Deus nem é um deus entre outros: ele sempre existiu e é Deus (João 1:1-3, 14). Por isso, as diferenças sobre Deus também mudam a maneira de entender Jesus.
Há diferenças importantes na salvação. Os santos dos últimos dias falam da graça de Cristo, mas também dão um papel essencial à obediência, ao batismo e a outras ordenanças da igreja para receber as maiores bênçãos da vida futura. Ensinam ainda que há diferentes graus de glória após a ressurreição. O Novo Testamento, por sua vez, ensina que ninguém consegue se reconciliar com Deus por cumprir rituais ou acumular boas obras. Somos salvos pela graça, mediante a fé em Jesus; as boas obras vêm como resultado dessa fé, não como o preço da salvação (Efésios 2:8-10; Romanos 3:28). A Bíblia fala da ressurreição, do juízo e da vida eterna com Deus, mas não apresenta o sistema mórmon de três reinos de glória (João 5:28-29; Apocalipse 20:11-15; 21:1-4).
Então, a resposta mais clara é esta: o mormonismo é uma religião que usa linguagem cristã e afirma seguir Jesus, mas suas crenças sobre Deus, Cristo, as Escrituras e a salvação não correspondem à fé cristã histórica. É possível dizer isso com firmeza e, ao mesmo tempo, tratar os mórmons com respeito. A sinceridade e a bondade de uma pessoa não eliminam as diferenças de crença, mas essas diferenças também não são motivo pra tratá-la com desprezo.