Não há evidência de que Moisés tenha copiado o Código de Hamurabi. Existem semelhanças reais entre algumas leis, mas semelhança não é a mesma coisa que cópia. Os dois textos tratam de problemas que qualquer sociedade precisava resolver: agressões, roubos, sequestros, disputas por bens e danos causados a outras pessoas.
Hamurabi foi um rei da Babilônia que viveu séculos antes da época em que Moisés é tradicionalmente situado. Seu código é, portanto, mais antigo do que a Lei de Israel. Essa ordem das datas torna possível perguntar se houve alguma influência. Mas, pra afirmar que Moisés copiou o código, seria preciso mais do que encontrar leis parecidas.
Veja um exemplo. Êxodo 21:18-19 trata de uma briga em que um homem fere outro e determina que o agressor pague pelo tempo em que a vítima ficou sem trabalhar e pelos cuidados necessários à sua recuperação. Uma lei de Hamurabi também fala do pagamento das despesas de tratamento após uma briga. A ideia é semelhante, mas não é surpreendente: em qualquer lugar onde alguém se machucasse numa briga, surgiria a pergunta sobre quem deveria pagar pelo prejuízo.
A diferença mais importante aparece quando olhamos para as leis como um todo. O código de Hamurabi busca estabelecer a justiça e a ordem no reino da Babilônia. Ele também tem uma dimensão religiosa: Hamurabi apresenta sua autoridade em ligação com os deuses. Por isso, seria incorreto dizer que seu código não tinha religião. Já a Lei dada a Israel faz parte de uma aliança com o Senhor. Ela não trata apenas de resolver disputas entre pessoas; ensina o povo a adorar a Deus, a cuidar do próximo e a viver de acordo com a santidade dele. Deuteronômio 6:4-5 coloca o amor ao Senhor no centro da vida de Israel, e Levítico 19 liga a santidade a atitudes concretas no dia a dia.
Há ainda diferenças na maneira de aplicar certas punições. No código de Hamurabi, a posição social das pessoas podia mudar a pena por uma agressão. A Lei de Israel também surgiu numa sociedade antiga e contém regras que hoje exigem cuidado pra ser entendidas. Mesmo assim, ela apresenta princípios próprios, como a proteção de pessoas vulneráveis e a exigência de justiça também para o estrangeiro que vivia entre os israelitas (Êxodo 22:21-27; Levítico 19:33-34).
Isso não quer dizer que cada lei de Israel fosse diferente de tudo o que existia antes. Povos da região já usavam maneiras parecidas de formular regras para situações específicas: *se acontecer isto, a consequência será aquela*. Outros conjuntos de leis antigos mostram que essas formas não pertenciam só a Hamurabi. Compartilhar uma maneira de escrever leis, ou dar respostas parecidas a problemas comuns, não prova que um texto foi copiado de outro.
Também não precisamos exagerar no sentido contrário. A Bíblia não diz que Moisés jamais conheceu alguma lei de outros povos, e não temos como reconstruir todas as influências culturais daquele tempo. O que ela afirma é que o Senhor deu sua Lei a Israel no contexto da aliança do Sinai (Êxodo 19–20; 24). Para quem recebe esse relato bíblico, o fato de algumas regras se parecerem com regras mais antigas não anula sua origem divina. Deus podia falar a Israel sobre situações que o povo conhecia, usando formas que as pessoas da época entendiam.
Então, a resposta mais cuidadosa é esta: o Código de Hamurabi ajuda a entender o mundo antigo em que leis como as de Israel foram registradas, mas as semelhanças entre eles não demonstram que Moisés tenha copiado a Lei. Para entender a Lei bíblica, é preciso olhar não só para regras isoladas, mas para o que elas significavam dentro da relação de Israel com Deus.