O mitraísmo era uma religião praticada no Império Romano, especialmente entre os séculos I e IV depois de Cristo. Seus seguidores cultuavam Mitra e se reuniam em pequenos grupos, muitas vezes em locais construídos pra lembrar cavernas. A religião atraía sobretudo homens, inclusive soldados romanos. Ela tinha rituais reservados aos iniciados, por isso não conhecemos todos os seus ensinamentos.
O nome Mitra já existia em tradições religiosas da antiga Pérsia. Mas é importante não tratar o culto romano como se fosse simplesmente a mesma religião persa. O que sabemos sobre o mitraísmo romano vem principalmente de imagens, inscrições e restos dos lugares onde seus seguidores se reuniam. Um desenho aparece com frequência: Mitra matando um touro. O significado exato dessa cena ainda é discutido.
A dúvida que costuma vir junto é esta: o cristianismo teria copiado o mitraísmo? Não há boa base histórica pra afirmar isso. Circulam listas dizendo que Mitra nasceu de uma virgem, teve doze discípulos, morreu, ressuscitou e fez uma última ceia igual à de Jesus. O problema é que essas afirmações misturam tradições diferentes ou vão além do que as fontes permitem dizer. Nas imagens do culto romano, por exemplo, Mitra aparece saindo de uma rocha, não nascendo de uma virgem. Também não temos evidência de que sua história incluísse morte e ressurreição como as de Jesus. O ritual de banho no sangue de um touro, às vezes apresentado como um “batismo mitraico”, está ligado sobretudo a outro culto romano, não é uma prática mitraica comprovada.
Isso não quer dizer que não existissem semelhanças. Os seguidores de Mitra participavam de refeições religiosas, e algumas imagens mostram Mitra numa refeição com o deus Sol. Cristãos também se reuniam e celebravam a Ceia do Senhor. Mas uma refeição religiosa, por si só, não mostra que uma religião copiou a outra. O mesmo cuidado vale pra data de 25 de dezembro: ela aparece associada ao culto romano do Sol, mas não há prova segura de que fosse celebrada como o aniversário de Mitra.
A origem da fé cristã está ligada à história de Jesus e ao ambiente judaico do primeiro século. Os primeiros cristãos anunciavam sua morte e ressurreição e relacionavam esses acontecimentos às Escrituras de Israel (Lucas 24:44-47; 1 Coríntios 15:3-8). Já o mitraísmo romano deixou muito menos textos que expliquem suas crenças. Por isso, não dá pra concluir que o cristianismo nasceu do mitraísmo. Também seria um exagero afirmar que toda semelhança surgiu porque os mitraístas copiaram os cristãos: as evidências não permitem reconstruir cada influência com essa certeza.
Do ponto de vista bíblico, há ainda uma diferença fundamental. Os cristãos não adoram Jesus como mais um deus entre vários. Eles creem no único Deus e confessam Jesus Cristo como Senhor e como aquele por meio de quem Deus nos reconcilia consigo (1 Coríntios 8:4-6; 1 Timóteo 2:5). Assim, conhecer o mitraísmo ajuda a entender melhor o mundo romano em que o cristianismo se espalhou. Mas as alegadas semelhanças com Jesus precisam ser examinadas uma por uma, em vez de aceitas como prova de que as duas religiões contavam a mesma história.