Depende do que se chama de “ministério de libertação”. Se a expressão significa orar por alguém oprimido, anunciar a liberdade que há em Jesus e, diante de uma situação de influência demoníaca, buscar a ajuda de Cristo, há base bíblica pra isso. Jesus expulsou demônios e deu autoridade aos seus discípulos pra fazer o mesmo (Mateus 10:1, 8; Lucas 10:17). O livro de Atos também relata casos assim, como o da jovem de quem Paulo expulsou um espírito maligno (Atos 16:16-18).
Mas hoje a expressão costuma descrever algo mais específico: reuniões ou métodos que procuram identificar demônios por trás de problemas como raiva, medo, doenças ou dificuldades nos relacionamentos, e expulsá-los para que a pessoa melhore. É aí que precisamos examinar cada ensino e cada prática com cuidado. A Bíblia mostra que demônios existem e que Jesus tem autoridade sobre eles. Ela não ensina, porém, que todo problema tenha uma causa demoníaca, nem apresenta um procedimento que a igreja precise seguir pra descobrir o nome de espíritos, quebrar supostos “direitos legais” deles ou realizar sessões de libertação.
Isso não diminui a realidade da luta espiritual. O Novo Testamento manda os cristãos resistirem ao diabo, permanecerem firmes na fé, orarem e viverem conforme a Palavra de Deus (Tiago 4:7; 1 Pedro 5:8-9; Efésios 6:10-18). Ele também fala de pecado, sofrimento, fraqueza e necessidade de apoio mútuo. Por isso, seria um erro dizer a alguém que luta contra a ansiedade, por exemplo, que ela necessariamente tem um demônio. Essa pessoa pode precisar de oração e acompanhamento pastoral, mas também de cuidados de saúde. Uma coisa não impede a outra.
Há ainda uma distinção importante entre os relatos da Bíblia e as instruções dadas à igreja. Os Evangelhos e Atos contam expulsões de demônios. Já as cartas do Novo Testamento, ao ensinar os cristãos a viverem e ajudarem uns aos outros, não estabelecem um ministério de libertação com técnicas próprias como prática obrigatória pra toda igreja. Isso não significa que Deus não possa libertar alguém de uma ação demoníaca hoje. Significa que não devemos transformar em regra aquilo que a Bíblia não ensinou como regra.
Também não é preciso ter o título de “ministro de libertação” pra ter acesso à ajuda de Jesus. A autoridade, nos relatos bíblicos, vem dele, não de uma técnica ou de uma pessoa especial. Quando os discípulos se alegraram porque os espíritos se submetiam a eles, Jesus os orientou a dar mais importância ao fato de pertencerem a Deus (Lucas 10:17-20). O centro da fé cristã não é aprender a falar com demônios; é confiar em Cristo.
Então, é bíblico crer que Jesus liberta e orar por quem sofre. O que não é bíblico é tratar toda dificuldade como ação demoníaca, prometer libertação por meio de fórmulas ou fazer das sessões de libertação o caminho normal e necessário pra vida cristã. Quem precisa de ajuda deve encontrar numa igreja séria oração, ensino da Bíblia, cuidado paciente e discernimento — sem medo alimentado por diagnósticos espirituais precipitados.