Depende do que se quer dizer com “ministério da libertação”. Se a expressão significa orar por pessoas aflitas e buscar a ajuda de Jesus diante da ação de espíritos malignos, há base bíblica pra isso. Jesus expulsou demônios, e seus discípulos também o fizeram pela autoridade dele (Marcos 1:32-34; Lucas 10:17; Atos 16:16-18).
Mas, hoje, a expressão costuma se referir a algo mais específico: reuniões ou atendimentos em que se procura identificar demônios por trás de problemas como raiva, medo ou vícios e expulsá-los. Algumas práticas incluem procurar supostas maldições ou “direitos” que dariam aos demônios acesso à vida da pessoa. A Bíblia não ensina esse conjunto de práticas como um método que a igreja deva seguir.
É importante não negar o que as Escrituras mostram. Jesus encontrou pessoas realmente oprimidas por espíritos malignos e as libertou. Em alguns momentos, deu aos discípulos autoridade pra expulsar demônios (Mateus 10:1, 8). Portanto, não seria correto dizer que toda oração por libertação, ou toda expulsão de demônios, é antibíblica.
Ao mesmo tempo, os relatos bíblicos não autorizam concluir que *todo* sofrimento ou pecado é causado por um demônio específico. Uma pessoa pode lutar contra a raiva, por exemplo, sem que exista um “espírito de raiva” a ser expulso. Quando Paulo orienta os cristãos a abandonar a ira, ele fala de mudança de comportamento, cuidado pra não dar lugar ao diabo e uma vida guiada pelo Espírito (Efésios 4:26-27, 31-32; Gálatas 5:16-23). A Bíblia também não manda os cristãos descobrir o nome de um demônio antes de ajudar alguém.
Então, como a igreja deve agir? Ela não precisa escolher entre levar a ação do diabo a sério e cuidar da pessoa de maneira responsável. O Novo Testamento ensina os cristãos a orar, permanecer firmes na fé e resistir ao diabo (Efésios 6:10-18; Tiago 4:7; 1 Pedro 5:8-9). Também ensina a confessar pecados, buscar apoio de outros irmãos e crescer em obediência a Cristo (Tiago 5:16; Gálatas 6:1-2). Se alguém está sofrendo, merece ser ouvido e ajudado com cuidado — não receber um diagnóstico espiritual apressado. Buscar ajuda médica ou psicológica, quando necessária, também não é falta de fé.
O próprio Jesus mostrou qual deve ser a prioridade. Quando os discípulos se alegraram porque os espíritos malignos lhes obedeciam, ele os orientou a se alegrar, acima de tudo, por pertencerem a Deus (Lucas 10:17-20). A segurança do cristão não está em encontrar um especialista capaz de identificar cada influência espiritual. Está em Cristo.
Assim, é bíblico reconhecer a realidade dos demônios e pedir a Deus libertação quando houver necessidade. O que não é bíblico é transformar isso num método obrigatório, tratar cada dificuldade como possessão ou colocar a confiança em técnicas que as Escrituras não ensinam. O centro do cuidado cristão deve continuar sendo Jesus: anunciar o evangelho, orar e acompanhar as pessoas com verdade e amor.