Se a ideia é entrar num grupo armado pra enfrentar o governo ou impor mudanças pela força, a resposta, em regra, é não. A Bíblia não ensina o cristão a pegar em armas por causa de discordâncias políticas, mesmo quando o governo comete injustiças. Isso não significa aprovar o que o governo faz. Significa reconhecer que combater uma injustiça não dá a ninguém o direito de agir como quiser.
Jesus viveu sob o domínio de Roma, e muitos judeus desejavam se livrar daquele governo. Mesmo assim, ele não chamou seus seguidores pra formar uma resistência armada. Quando Pedro usou uma espada na ocasião da prisão de Jesus, Jesus o mandou guardá-la (Mateus 26:51-52). Mais tarde, explicou que seu reino não avançava por meio da luta de seus seguidores contra as autoridades que o prendiam (João 18:36).
Os apóstolos também ensinaram os cristãos a respeitar as autoridades e a viver de maneira pacífica (Romanos 13:1-4; 1 Pedro 2:13-17). E, em vez de tratar os governantes apenas como inimigos, Paulo orientou a igreja a orar por eles (1 Timóteo 2:1-2). Essa orientação não depende de o governo ser perfeito. Os primeiros cristãos a receberam num tempo em que as autoridades também podiam agir de forma injusta.
Mas respeitar as autoridades não é obedecer a qualquer ordem. Quando os apóstolos foram proibidos de anunciar Jesus, continuaram anunciando, porque obedecer a Deus vinha primeiro (Atos 4:18-20; 5:29). Daniel fez o mesmo quando uma lei proibiu suas orações (Daniel 6). Esses exemplos mostram que pode ser necessário desobedecer a uma ordem injusta. Eles não mostram, porém, que a desobediência dê permissão pra organizar um grupo armado.
Também é importante entender o que se quer dizer com *milícia*. Em alguns lugares, a palavra pode se referir a uma força legal de reserva, ligada ao Estado. Nesse caso, a pergunta se aproxima da questão de servir nas forças armadas — assunto sobre o qual cristãos têm entendimentos diferentes. Já um grupo armado que age por conta própria, ameaça pessoas ou tenta impor sua vontade pela violência apresenta um problema bem mais claro.
O cristão não precisa ficar indiferente diante da injustiça. Pode proteger quem está em perigo, prestar ajuda, denunciar crimes, buscar os meios legais disponíveis e, quando uma ordem contrariar a vontade de Deus, recusá-la. O que ele não deve fazer é confundir o desejo de corrigir um mal com autorização pra participar de violência ou tomar para si o poder de punir. Seguir Jesus exige coragem pra fazer o que é certo, mas também cuidado com os meios usados pra isso.