O divórcio, por si só, não dá uma resposta automática. Em 1 Timóteo 3:2, Paulo diz que o líder da igreja deve ser “esposo de uma só mulher”. Ele usa a mesma expressão ao falar dos diáconos em 1 Timóteo 3:12. Os cristãos concordam que um líder precisa ser fiel no casamento, mas divergem sobre se a frase também impede que um homem divorciado e casado novamente exerça essas funções.
A expressão pode ser entendida como “homem de uma mulher só”: alguém inteiramente fiel à esposa, e não um homem que mantém outras relações ou trata o casamento com descuido. Outros entendem que Paulo exige que o líder tenha tido apenas um casamento. Há ainda quem veja na frase, principalmente, uma proibição da poligamia. Por isso, não é seguro dizer que esse versículo, sozinho, resolve todos os casos de divórcio.
Pra entender como uma igreja deve avaliar um homem divorciado, é preciso considerar também o que aconteceu naquele casamento. Jesus trata o divórcio como um assunto sério e menciona a imoralidade sexual ao falar de uma situação excepcional (Mateus 19:3-9). Paulo também orienta os cristãos sobre o caso em que um cônjuge descrente decide ir embora (1 Coríntios 7:12-16). Há diferenças entre cristãos quanto a todas as consequências dessas passagens, especialmente sobre um novo casamento. Mas elas mostram por que não se deve tratar do mesmo jeito quem abandonou a família sem justificativa e quem foi abandonado.
Além disso, Paulo não apresenta “esposo de uma só mulher” como uma exigência isolada. O pastor ou presbítero deve ser irrepreensível, ter domínio próprio, cuidar bem da família e ter boa reputação também entre os de fora da igreja (1 Timóteo 3:2-7; Tito 1:5-9). Os diáconos também precisam ser examinados quanto ao caráter e à maneira como cuidam da família (1 Timóteo 3:8-12). Ser irrepreensível não significa nunca ter errado, nem depender da aprovação de todas as pessoas. Significa que sua vida atual não apresenta uma razão séria e comprovada pra questionar seu caráter.
Por isso, a avaliação precisa ser cuidadosa. Ele foi fiel ou contribuiu para a separação? Houve arrependimento, quando necessário? Como trata hoje a esposa, os filhos e as responsabilidades que ficaram do casamento anterior? Há tempo e evidências suficientes pra conhecer seu caráter? O fato de o divórcio ter acontecido antes da conversão é importante, mas também não torna essas perguntas desnecessárias.
Assim, algumas igrejas entendem que um homem divorciado e casado novamente não deve exercer esses cargos. Outras consideram que ele pode exercê-los, dependendo das circunstâncias do divórcio e de sua vida atual. Em qualquer caso, a decisão não deve ser tomada apenas com base no estado civil, nem ignorar o ensino bíblico sobre casamento e liderança.
E se a igreja concluir que ele não deve servir como pastor, presbítero ou diácono, isso não significa que ele deixou de ter lugar ou utilidade nela. Os dons que Deus dá aos cristãos são para o bem de toda a igreja (1 Coríntios 12:4-7). Não exercer um cargo é diferente de não poder servir.