A resposta mais honesta é: não sabemos com certeza absoluta, mas há boas razões para pensar que Marcos não escreveu esses versículos. Por isso, muitas Bíblias os mantêm no texto, acompanhados de uma nota explicando que eles não aparecem em alguns dos manuscritos mais antigos. Essa é uma maneira útil de deixar o leitor conhecer a passagem sem esconder a dúvida sobre sua origem.
O problema começa logo depois de Marcos 16:8. Até ali, as mulheres foram ao túmulo de Jesus, encontraram-no vazio e ouviram que ele havia ressuscitado. Elas saíram assustadas. Em seguida, os versículos 9 a 20 contam aparições de Jesus, sua ordem pra anunciar o evangelho e sua subida ao céu. A pergunta não é se Jesus ressuscitou — isso é ensinado claramente em outras partes do Novo Testamento. A pergunta é se esse trecho fazia parte do Evangelho quando Marcos o escreveu.
Os manuscritos antigos, que são cópias feitas à mão, não trazem todos o mesmo final. Dois manuscritos gregos muito antigos e importantes terminam no versículo 8. Outros incluem os versículos 9 a 20; há ainda cópias com um final diferente e mais curto. Isso mostra que, em algum momento, o final de Marcos foi transmitido de maneiras diferentes. Ao mesmo tempo, não se trata de uma passagem inventada recentemente: Irineu, um escritor cristão do século II, já conhecia o final longo. A antiguidade do trecho, porém, não prova por si só que Marcos o escreveu.
Há também uma mudança perceptível na maneira de contar. O versículo 8 termina com o medo das mulheres. O versículo 9 passa a falar das aparições de Jesus e apresenta Maria Madalena com uma explicação sobre ela, embora Marcos já a tivesse mencionado. Além disso, algumas palavras e expressões desse final não aparecem no restante do Evangelho. Nenhum desses detalhes resolveria a questão sozinho, mas, junto com as diferenças entre os manuscritos, eles aumentam a dúvida.
Então Marcos queria mesmo terminar no versículo 8? É possível. O espanto das mulheres combina com o modo como Marcos relata, ao longo do livro, a reação das pessoas diante de Jesus. Também é possível que um final original tenha se perdido e que alguém, mais tarde, tenha acrescentado os versículos 9 a 20 pra completar o relato. Não temos como afirmar qual dessas possibilidades aconteceu.
E como ler a passagem hoje? Não é preciso arrancá-la da Bíblia nem tratá-la como se não houvesse nenhuma dúvida. O melhor é lê-la sabendo dessa questão e não construir uma doutrina ou prática apenas com base nela. Isso importa especialmente no caso da referência a pegar serpentes e beber veneno em Marcos 16:17-18: o trecho não deve ser usado como ordem pra alguém se expor ao perigo a fim de provar sua fé.
A boa notícia é que nada essencial da fé cristã depende desses versículos. A ressurreição de Jesus, suas aparições aos discípulos e a missão de anunciar o evangelho são ensinadas em outras passagens. Assim, a nota que aparece em muitas Bíblias não põe essas verdades em dúvida. Ela apenas ajuda o leitor a distinguir o que o Novo Testamento ensina com clareza daquilo que ainda é discutido sobre o final escrito por Marcos.