Josué não amaldiçoou todos os que morassem em Jericó. A advertência dele foi dirigida à pessoa que se levantasse para reconstruir a cidade: essa pessoa perderia o filho mais velho ao lançar os alicerces e o mais novo ao colocar os portões (Josué 6:26).
Pra entender a força dessa advertência, é preciso lembrar o que tinha acabado de acontecer. Jericó foi a primeira cidade tomada por Israel na conquista de Canaã. Deus havia dado instruções especiais sobre ela: o povo não deveria guardar pra si os bens da cidade, e os metais de valor seriam destinados ao tesouro do Senhor. Raabe e os que estavam com ela seriam poupados (Josué 6:17-19). Além disso, a queda dos muros não foi apresentada como resultado da força militar de Israel, mas da ação de Deus (Josué 6:20).
Nesse contexto, reconstruir Jericó seria mais do que começar uma obra. Seria desconsiderar uma advertência feita em nome do Senhor sobre uma cidade que ele havia entregue a Israel de uma maneira singular. A Bíblia, porém, não explica expressamente por que Deus estabeleceu essa proibição. A ligação com o que aconteceu na conquista ajuda a entender a seriedade dela, mas não devemos apresentar uma razão que o texto não declara.
Também é importante notar o que Josué *não* disse. Ele não afirmou que ninguém jamais viveria naquele lugar. O alvo da maldição era quem reconstruísse a cidade. Isso ajuda a entender por que Jericó volta a ser mencionada em outras passagens bíblicas sem que a palavra de Josué tenha sido esquecida.
Séculos depois, no reinado de Acabe, um homem chamado Hiel reconstruiu Jericó. Primeiro Reis 16:34 conta que Abirão, seu filho mais velho, morreu quando ele lançou os alicerces, e Segube, o mais novo, morreu quando colocou os portões. O texto apresenta essas mortes como o cumprimento da palavra que Deus havia anunciado por meio de Josué. Ele não explica, porém, *como* os filhos morreram; por isso, não seria correto acrescentar detalhes sobre a causa das mortes.
O relato aparece numa época em que o rei Acabe promovia a adoração de Baal em Israel (1 Reis 16:30-33). A reconstrução de Jericó, apesar da antiga advertência, combina com esse quadro de desprezo pela palavra de Deus.
Assim, a resposta mais cuidadosa é esta: Josué pronunciou a maldição pra advertir contra a reconstrução de uma cidade sobre a qual Deus havia dado instruções especiais. A razão exata da proibição não é explicada, mas a história de Hiel mostra que aquela palavra deveria ter sido levada a sério.