Malaquias 3:9-10 não estabelece uma obrigação de entregar 10% da renda à igreja. Deus falou ali ao povo de Israel, que estava deixando de cumprir uma ordem da Lei dada a ele. Isso não quer dizer que a passagem não tenha nada a ensinar aos cristãos. Ela mostra que Deus leva a sério a maneira como seu povo usa o que recebeu. Mas, pra entender como contribuir hoje, precisamos ler também o que o Novo Testamento ensina à igreja.
Na época de Malaquias, os israelitas deviam levar dízimos — a décima parte de determinados produtos da terra e dos rebanhos — conforme a Lei de Moisés. Parte do que era entregue sustentava os levitas, que serviam no templo e não tinham uma herança de terras como as outras tribos (Números 18:21-24; Deuteronômio 14:22-29). A “casa do Tesouro” mencionada por Malaquias era ligada ao templo, onde essas provisões eram guardadas. O povo não estava cumprindo essa responsabilidade. Por isso, Deus o repreendeu e prometeu abençoá-lo se voltasse a obedecer (Malaquias 3:8-12).
O contexto também ajuda a entender a promessa de bênção. Deus fala de colheitas, pragas e videiras: eram questões concretas da vida de Israel naquela terra. Por isso, não é correto transformar a passagem numa garantia de que todo cristão que entregar 10% do salário ficará rico, nem dizer que quem não fizer isso está debaixo da maldição anunciada em Malaquias. A repreensão foi dirigida a Israel por desobedecer à Lei que Deus lhe havia dado.
Mas Jesus não aprovou o dízimo? Sim. Ele disse aos fariseus que não deviam deixar de praticá-lo, ao mesmo tempo que os repreendeu por negligenciarem a justiça e o amor de Deus (Lucas 11:42). Jesus estava falando com judeus que viviam sob aquela Lei. A passagem mostra que dar o dízimo não compensava a falta de amor e justiça; não traz, por si só, uma ordem de 10% para a igreja.
Quando o Novo Testamento ensina os cristãos a contribuir, ele põe o foco na generosidade, na disposição do coração e nas necessidades reais, sem fixar uma porcentagem. Paulo orientou os cristãos a separar algo conforme suas condições e a dar de boa vontade, não por pressão (1 Coríntios 16:2; 2 Coríntios 9:7). As contribuições serviam pra ajudar pessoas necessitadas e sustentar quem trabalhava no anúncio do evangelho (Romanos 15:25-27; 1 Coríntios 9:11-14; Filipenses 4:15-16).
Então, uma pessoa pode escolher dar 10% como forma de organizar sua generosidade. Isso pode ser útil, desde que ela não trate esse número como uma exigência que o Novo Testamento impõe a todos, nem como um pagamento que obriga Deus a fazê-la prosperar. Para alguém, contribuir fielmente poderá significar menos que isso numa fase difícil; para outra pessoa, com mais recursos, poderá significar muito mais.
Assim, a resposta é: a ordem específica de Malaquias foi dada a Israel e não deve ser aplicada diretamente como uma cobrança à igreja. O chamado do cristão hoje não é ignorar as necessidades dos outros, mas contribuir de maneira responsável, voluntária e generosa, conforme aquilo que tem recebido.