Os lolardos eram cristãos ingleses que, no fim da Idade Média, queriam que a igreja examinasse seus ensinamentos e costumes à luz da Bíblia. Eles ficaram ligados às ideias de John Wycliffe, um professor de teologia que viveu no século 14. O nome “lolardo” foi dado a eles por seus opositores; não era, originalmente, um nome que escolheram pra si.
Wycliffe questionava a autoridade do papa e defendia que as Escrituras deveriam orientar o que a igreja ensina. Isso tinha consequências práticas. Se a Bíblia era a referência, as pessoas precisavam poder conhecê-la. Por isso, Wycliffe e pessoas ligadas a ele participaram do movimento que produziu uma tradução da Bíblia para o inglês da época. A atribuição exata de cada parte desse trabalho é discutida, mas o propósito de tornar o texto bíblico acessível está bem ligado ao movimento.
Os lolardos não formavam um grupo em que todos pensavam exatamente da mesma maneira. Em geral, porém, defendiam a pregação da Bíblia, criticavam o acúmulo de riqueza e poder por líderes religiosos e questionavam práticas que, a seu ver, não tinham fundamento nas Escrituras. Entre elas estavam a veneração de relíquias, certas peregrinações e a ideia de que pagar por orações em favor dos mortos traria benefício espiritual.
Um documento apresentado em 1395, conhecido como *As Doze Conclusões dos Lolardos*, mostra a força dessas críticas. Ele também rejeitava a explicação medieval de que, na missa, o pão e o vinho se transformavam no corpo e no sangue de Cristo. O documento trazia ainda críticas ao celibato obrigatório do clero e à participação de cristãos em guerras. Não é preciso concordar com cada argumento dos lolardos pra entender a pergunta que os movia: a igreja pode exigir dos cristãos algo que não consegue justificar pela Bíblia?
Essa preocupação encontra apoio no modo como o Novo Testamento trata as Escrituras. Paulo ensina que elas são úteis pra ensinar e preparar o servo de Deus (2 Timóteo 3:16-17). Em Atos 17:11, os bereanos são elogiados por conferir nas Escrituras o que ouviam. E Jesus criticou líderes religiosos quando suas tradições acabavam deixando de lado a palavra de Deus (Marcos 7:8-13). Essas passagens não resolvem, por si só, todas as questões que os lolardos levantaram. Elas ajudam a entender por que consideravam tão importante comparar os ensinamentos da igreja com o texto bíblico.
Defender essas ideias podia custar a vida. No início do século 15, autoridades inglesas passaram a perseguir com mais força quem consideravam herege. Henry Sawtrey, ligado ao movimento, foi queimado em 1401. Em 1414, uma revolta associada a John Oldcastle foi derrotada, e a repressão aumentou. Seria incorreto, porém, dizer que todos os lolardos participaram de uma rebelião: o movimento era mais amplo que aquele episódio.
Os lolardos surgiram mais de um século antes da Reforma Protestante. Algumas de suas críticas eram parecidas com as que seriam feitas depois pelos reformadores, embora não se deva tratá-los como se já fossem protestantes do século 16. Escritos de Wycliffe também chegaram à Boêmia e influenciaram Jan Hus.
Em resumo, os lolardos foram um movimento de cristãos ingleses que insistiu em duas coisas: as pessoas deveriam ter acesso à Bíblia, e os ensinamentos da igreja deveriam ser avaliados por ela. Essa é a razão principal de sua importância na história do cristianismo.