O livro de Tobit, também chamado de Tobias, conta a história de uma família israelita que vive longe de sua terra. Ele aparece no Antigo Testamento das Bíblias católicas, mas geralmente não faz parte das Bíblias protestantes. A diferença não é porque o livro tenha sido descoberto recentemente: cristãos o conhecem e leem há muitos séculos. A questão é se ele deve ser considerado Escritura Sagrada.
Na história, Tobit é um homem que procura obedecer a Deus mesmo vivendo no exílio, na cidade de Nínive. Ele ajuda os pobres e enterra israelitas mortos, apesar dos riscos que isso traz. Depois, perde a visão. Em outro lugar, uma jovem chamada Sara sofre porque um demônio matou os homens com quem ela tentou se casar. Os dois, em sua aflição, oram a Deus.
Tobit então envia seu filho, Tobias, numa viagem para buscar um dinheiro que havia deixado com um parente. Sem saber quem é seu companheiro de viagem, Tobias recebe a ajuda do anjo Rafael. Ao longo do caminho, ele conhece Sara e se casa com ela. No fim, volta pra casa e ajuda seu pai a recuperar a visão. A narrativa fala de oração, cuidado com a família, generosidade e confiança em Deus durante o sofrimento.
O livro situa sua história no tempo em que israelitas foram levados para o exílio, séculos antes de Jesus. Mas sua composição costuma ser datada de bem mais tarde, provavelmente nos últimos séculos antes de Cristo. Fragmentos antigos de Tobit, escritos em aramaico e hebraico, foram encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto. Isso mostra que o livro já circulava entre judeus antes do tempo de Jesus.
Por que, então, algumas Bíblias o incluem e outras não? A Igreja Católica reconhece Tobit como parte do Antigo Testamento e o chama de *deuterocanônico*. Algumas outras tradições cristãs também o recebem. Já os protestantes o classificam entre os *apócrifos*: livros antigos que podem ser lidos, mas que não são aceitos por eles como autoridade igual à dos livros bíblicos. Em geral, essa diferença está ligada à maneira como cada tradição reconhece os livros do Antigo Testamento, não a uma dúvida sobre a existência ou a antiguidade de Tobit.
Há também uma questão importante sobre seus ensinamentos. Tobit dá grande valor às esmolas — a ajuda dada aos pobres — e, em algumas passagens, fala delas em termos que podem soar como se essa prática livrasse a pessoa do pecado e da morte (Tobit 4:10; 12:9). Cristãos entendem essas palavras de maneiras diferentes. Para os protestantes, elas são uma razão para não tratar o livro como autoridade doutrinária, pois o Novo Testamento ensina que ninguém é aceito por Deus por merecimento de suas obras, mas pela fé em Jesus Cristo (Gálatas 2:16; Efésios 2:8-10). Católicos, por sua vez, não entendem que alguém possa comprar a salvação dando esmolas; leem essas passagens junto com o ensino de que a fé deve se mostrar em atos de amor.
Assim, a resposta mais simples é: Tobit é um antigo livro religioso judaico que conta uma história de sofrimento, oração e ajuda de Deus. Ele faz parte da Bíblia católica, mas não do cânon protestante. Mesmo pra quem não o considera Escritura, conhecê-lo ajuda a entender como muitos judeus, nos séculos anteriores a Jesus, falavam sobre fé, família e vida diante de Deus.