O livro de Números conta o que aconteceu com os israelitas depois que Deus os libertou do Egito e antes de entrarem na terra que havia prometido a eles. É a história de uma viagem pelo deserto que deveria levá-los a Canaã, mas acabou durando muitos anos por causa da desobediência e da falta de confiança em Deus.
O nome do livro vem das contagens do povo registradas no começo e perto do fim da história (Números 1; 26). Essas contagens ajudam a perceber uma mudança importante: a geração que saiu do Egito não seria a mesma que entraria na terra prometida.
No início, Israel está acampado junto ao monte Sinai. Deus organiza as tribos, dá orientações pra vida do povo e estabelece como deveriam seguir viagem. Números continua, assim, a história de Êxodo e Levítico: Deus não tinha apenas libertado os israelitas; ele estava ensinando aquele povo a viver em sua presença.
O momento decisivo chega quando Moisés envia homens pra conhecer a terra de Canaã. Eles voltam dizendo que a terra é boa, mas a maioria acha impossível conquistá-la. Josué e Calebe confiam que Deus pode cumprir o que prometeu. O povo, porém, se recusa a avançar e chega a desejar voltar ao Egito. Por causa dessa rebelião, Deus declara que aquela geração morreria no deserto. Josué e Calebe seriam as exceções, e os filhos dos israelitas entrariam na terra (Números 13–14).
Isso explica os quarenta anos de caminhada. Não foi porque Deus esqueceu a promessa. A geração que se recusou a confiar nele não entraria em Canaã, mas Deus continuaria cuidando dos seus filhos e os levaria até lá. Perto do fim do livro, uma nova geração é contada e preparada pra entrar na terra (Números 26).
A tradição judaica e cristã associa Números a Moisés. O próprio livro diz que ele registrou as etapas da viagem de Israel (Números 33:2). Não é possível, porém, determinar com segurança uma data exata pra redação final do livro; ela depende, entre outras coisas, de como se data o êxodo do Egito.
Números também mostra que o povo precisava da misericórdia de Deus durante a viagem. Há episódios de reclamação, idolatria e outros pecados, seguidos de consequências graves. Mesmo assim, Deus não abandona Israel. Uma das passagens mais conhecidas do livro é a bênção que ele manda os sacerdotes pronunciarem sobre o povo, pedindo sua proteção, seu favor e sua paz (Números 6:22-27). É uma lembrança de que Deus queria abençoar aquele povo, mesmo enquanto o ensinava a levar sua santidade a sério.
O que isso tem a ver com Jesus e com a vida cristã? O Novo Testamento usa acontecimentos de Números pra ensinar os seguidores de Cristo. Paulo alerta que a experiência de Israel deve nos fazer fugir da idolatria, da imoralidade e da atitude de pôr Deus à prova (1 Coríntios 10:1-12). Hebreus também aponta pra incredulidade daquela geração e nos chama a ouvir a voz de Deus, em vez de resistir a ela (Hebreus 3:7–4:13).
Há ainda uma ligação que o próprio Jesus faz. Em Números 21:4-9, depois que serpentes ferem os israelitas, Deus manda Moisés levantar uma serpente de bronze. Quem a olhava, conforme a orientação de Deus, sobrevivia. Jesus usa esse acontecimento pra explicar que ele seria levantado e que quem nele crê receberia a vida eterna (João 3:14-15). O episódio não ensina que um objeto tinha poder de salvar por si mesmo; mostra a importância de confiar no meio de salvação que Deus oferece.
A mensagem central de Números, portanto, é clara: Deus é fiel à sua promessa, mas a incredulidade e a rebelião têm consequências reais. A primeira geração não entrou na terra; ainda assim, Deus preservou a seguinte e a conduziu até o lugar prometido. Pra nós, o livro é ao mesmo tempo um alerta pra não desprezar a palavra de Deus e um convite pra confiar nele durante a caminhada.