O livro de Ester conta como os judeus que viviam no Império Persa escaparam de uma ordem que poderia acabar com eles. A história acompanha Ester, uma jovem judia que se tornou rainha, e Mardoqueu, seu primo, que a havia criado. No centro do livro está uma pergunta que continua importante: como agir com coragem quando fazer o que é certo pode custar muito caro?
Tudo acontece no reinado de Assuero, geralmente identificado com Xerxes I, no século quinto antes de Cristo. Muitos judeus ainda viviam fora de sua terra. Ester estava entre eles. Ela chegou ao palácio e se tornou rainha, mas não revelou de início que era judia (Ester 2:5-20).
Mais tarde, Hamã, um homem poderoso do governo, ficou furioso com Mardoqueu e conseguiu que o rei autorizasse a destruição dos judeus em todo o império (Ester 3). Quando Ester soube do decreto, Mardoqueu pediu que ela falasse com o rei. O problema é que se apresentar diante dele sem ser chamada podia resultar em morte, mesmo pra rainha. Mardoqueu então levantou a possibilidade de que ela tivesse chegado àquela posição justamente pra agir naquele momento (Ester 4:11-14).
Ester não agiu por impulso. Ela pediu que os judeus jejuassem, jejuou com suas servas e decidiu procurar o rei, apesar do risco (Ester 4:15-17). Depois, escolheu o momento de revelar que também era judia e de pedir pela vida de seu povo. Hamã foi desmascarado e morreu. Mas sua morte, por si só, não anulava o decreto que ele havia conseguido. Por isso, foi preciso publicar uma nova ordem, permitindo que os judeus se defendessem. Eles sobreviveram, e esses acontecimentos deram origem à festa de Purim, celebrada até hoje (Ester 7–9).
Um detalhe chama a atenção: o texto hebraico de Ester não menciona Deus pelo nome. Ainda assim, muitos cristãos entendem que a história mostra o cuidado de Deus agindo por meio de acontecimentos comuns e das decisões das pessoas. Mardoqueu presta um serviço ao rei; esse serviço fica registrado; numa noite em que não consegue dormir, o rei manda ler os registros e descobre que Mardoqueu nunca foi recompensado. Isso acontece justamente quando Hamã prepara sua morte (Ester 2:21-23; 6:1-10). O livro não diz expressamente que Deus causou a insônia do rei. O que ele nos convida a perceber é como acontecimentos que pareciam separados acabaram contribuindo pra preservação dos judeus.
Isso não diminui a coragem de Ester. Ela tinha uma oportunidade de ajudar, mas precisou decidir se a usaria. Também não significa que quem age corretamente sempre receberá o favor das pessoas ou escapará do perigo. O próprio risco que Ester enfrentou era real. Seu exemplo é o de alguém que, diante de uma necessidade grave, buscou apoio, agiu com sabedoria e não ficou em silêncio apenas pra proteger a si mesma.
O livro não informa quem o escreveu. Mardoqueu aparece registrando os acontecimentos ligados à instituição de Purim (Ester 9:20), mas isso não prova que ele tenha escrito o livro inteiro. Sua data exata também é incerta; ele foi escrito depois dos fatos que narra.
No fim, Ester nos deixa duas lições ligadas uma à outra: podemos confiar no cuidado de Deus mesmo quando não entendemos tudo o que está acontecendo, e essa confiança não é motivo pra ficar parados. Ester não sabia como o rei reagiria. Mesmo assim, fez o que podia pra salvar seu povo.