Paulo quer dizer que o falar em línguas podia ter um significado especial pra quem não cria, mas não que toda pessoa incrédula ouviria línguas e passaria a crer. Na verdade, ele alerta que, se várias pessoas falassem em línguas ao mesmo tempo numa reunião da igreja, sem que ninguém explicasse o que estava sendo dito, um visitante provavelmente acharia aquilo uma confusão (1 Coríntios 14:22-23).
Pra entender a palavra “sinal”, precisamos olhar o que Paulo acabou de citar. Em 1 Coríntios 14:21, ele lembra uma advertência feita ao povo de Israel: Deus falaria com eles por meio de pessoas de outras línguas, e, mesmo assim, eles não ouviriam. A passagem vem de Isaías 28:11-12. Ali, ouvir uma língua estrangeira não era simplesmente uma experiência impressionante. Era um aviso sério a um povo que se recusava a escutar a mensagem de Deus.
É nesse sentido que Paulo chama as línguas de sinal para os incrédulos. Elas podiam mostrar que Deus estava agindo, mas também lembrar que presenciar algo extraordinário não é a mesma coisa que ouvir e aceitar o que Deus diz. Por isso, não devemos entender “sinal” como “um meio que sempre convence”.
O próprio Paulo mostra a diferença. Se alguém de fora chegasse à reunião e ouvisse todos falando em línguas sem entender nada, poderia pensar que a igreja havia perdido o juízo. Mas, se ouvisse uma mensagem de Deus numa língua que compreendesse, poderia reconhecer seu pecado e se voltar pra Deus (1 Coríntios 14:23-25). A questão não era desprezar as línguas, e sim fazer com que as pessoas entendessem a mensagem. Por isso, Paulo orienta que, quando houvesse línguas na reunião, alguém deveria interpretá-las; se não houvesse intérprete, a pessoa não deveria falar à igreja naquela língua (1 Coríntios 14:27-28).
O Pentecostes ajuda a perceber outro lado disso. Em Atos 2, pessoas de vários lugares ouviram os discípulos anunciar as grandes obras de Deus em suas próprias línguas. Algumas ficaram admiradas; outras zombaram. Depois, Pedro explicou o que estava acontecendo e anunciou Jesus. Assim, as línguas chamaram a atenção, mas foi a mensagem compreensível que esclareceu seu significado e chamou os ouvintes ao arrependimento.
Portanto, 1 Coríntios 14:22 não é uma ordem pra encher o culto de falas que ninguém entende a fim de atrair incrédulos. Paulo ensina justamente o contrário: um dom dado por Deus não deve ser usado de um jeito que deixe as pessoas sem entender sua mensagem. O sinal pode chamar a atenção ou até servir de advertência, mas a igreja deve procurar falar de modo que quem chega consiga ouvir, compreender e responder a Deus.