Pode. A Bíblia não exige que o cristão seja libertário, mas também não o proíbe. Ela nos dá princípios pra avaliar o governo e a liberdade; não entrega um modelo político pronto nem diz exatamente quais serviços o Estado deve oferecer.
O libertarianismo é um conjunto de ideias políticas que, em geral, defende menos poder pro governo e mais liberdade pras pessoas decidirem como viver. Há libertários que aceitam um governo pequeno, responsável, por exemplo, pela segurança e pela justiça. Outros querem reduzir ainda mais a atuação do Estado. Por isso, dizer que alguém é libertário não nos conta, por si só, o que essa pessoa pensa sobre cada lei.
Um cristão pode achar valiosa essa preocupação com os limites do poder. Em 1 Samuel 8:10-18, Deus alertou Israel de que um rei poderia tomar seus recursos e usar o povo em benefício próprio. O aviso não significa que todo governo seja ilegítimo, mas mostra que o poder humano precisa ser visto com cuidado. Paulo também orienta os cristãos a orar pelas autoridades, para que possam viver em paz e praticar sua fé (1 Timóteo 2:1-2).
Ao mesmo tempo, a Bíblia não trata o governo como algo necessariamente ruim. Romanos 13:1-7 apresenta as autoridades como responsáveis por conter o mal e fazer justiça. O cristão deve respeitá-las e cumprir seus deveres, inclusive pagar os tributos devidos. Quando uma autoridade exige desobediência a Deus, porém, a fidelidade a Deus vem primeiro, como os apóstolos deixaram claro em Atos 5:29.
A outra pergunta importante é: o que fazemos com a nossa liberdade? Na visão cristã, ser livre não significa poder fazer qualquer coisa sem pensar nos outros. Paulo ensina que a liberdade não deve servir de desculpa pro egoísmo, mas levar ao amor e ao serviço ao próximo (Gálatas 5:13-14). Isso vale tanto pras escolhas pessoais quanto pras propostas políticas. Ao avaliar uma lei, o cristão precisa considerar não só se ela limita sua liberdade, mas também se protege pessoas que podem sofrer com as escolhas de outros.
É aí que cristãos podem discordar honestamente sobre o alcance do governo. Eles podem concordar que uma conduta é pecado e, ainda assim, discordar sobre se o Estado deve puni-la. A Bíblia não diz que todo pecado deve virar crime. Também não diz que o governo só pode agir diante de violência, roubo ou fraude. Pra decidir sobre uma medida concreta, é preciso perguntar o que ela busca proteger, se faz justiça e que consequências pode trazer.
Portanto, um cristão pode defender um governo mais limitado e se identificar com o libertarianismo. Mas nenhuma filosofia política deve se tornar sua autoridade final. Ele pode apoiar aquilo que considera justo, questionar aquilo que considera errado e continuar disposto a rever suas conclusões à luz da Bíblia.