A história mostra como a maldade pode crescer quando as pessoas deixam de tratar a vida dos outros como algo precioso. Em Juízes 19–21, uma mulher sofre uma violência terrível. Depois, a tentativa de punir os culpados acaba numa guerra e em novas injustiças. A Bíblia conta esses fatos, mas não os apresenta como exemplos a seguir.
O relato começa com um levita que vai buscar sua concubina na casa do pai dela. No caminho de volta, os dois passam a noite em Gibeá, uma cidade da tribo de Benjamim. Um homem os recebe em casa, mas, durante a noite, homens da cidade cercam a casa e exigem que o levita seja entregue a eles. Em vez de proteger a mulher, o levita a entrega aos agressores. Eles abusam dela durante a noite, e ela morre. Depois, o levita divide o corpo dela e envia as partes às tribos de Israel, provocando uma reação em todo o país (Juízes 19).
É uma leitura difícil, e vale notar algo importante: o levita não é o herói da história. O crime dos homens de Gibeá é evidente, mas o comportamento dele também é grave. A mulher precisava de proteção; ele a entregou à violência. O texto ainda nos deixa ver como ela foi tratada depois da morte: seu corpo serviu pra convocar Israel, enquanto a história quase não nos permite ouvir sua voz. Não devemos deixar que o choque causado pelo envio do corpo esconda a pessoa que sofreu tudo aquilo.
As tribos exigem que Benjamim entregue os responsáveis pelo crime. Os benjamitas se recusam, e começa uma guerra entre israelitas. Benjamim é quase destruída. Mais tarde, quando as outras tribos tentam impedir que ela desapareça, recorrem a mais violência: atacam Jabes-Gileade e levam mulheres de lá; depois, permitem que os benjamitas capturem moças em Siló pra se casar com elas (Juízes 20–21). Eles lamentam a tragédia, mas, ao tentar resolvê-la, fazem outras mulheres sofrerem.
Por isso, a lição não é apenas que os homens de Gibeá eram maus. O relato mostra uma comunidade inteira tomando decisões cada vez piores: alguns cometem um crime, outros protegem os culpados, e outros ainda tentam corrigir o desastre cometendo novas injustiças. Uma causa justa não torna justo qualquer meio usado pra defendê-la.
No fim, Juízes diz que, naquela época, não havia rei em Israel e cada um fazia o que achava certo (Juízes 21:25). A frase ajuda a entender a desordem daqueles dias, mas não significa que bastava ter um rei humano pra tudo se resolver. A história posterior de Israel mostra que reis também podiam agir mal. O problema mais fundo era viver sem ouvir a Deus e sem amar o próximo.
Essa história nos chama, portanto, a não passar por cima de quem está vulnerável, a não proteger culpados por lealdade ao nosso grupo e a não responder a uma injustiça com outra. Ela também nos lembra por que precisamos de uma justiça melhor do que a nossa. Jesus não entregou os fracos pra salvar a si mesmo; ele se entregou pelos outros (Marcos 10:45). Nele vemos o tipo de Rei que Israel — e todos nós — realmente precisamos.