Existem, sim, muitas histórias de grandes inundações contadas por povos diferentes. Algumas têm semelhanças marcantes com Gênesis: alguém recebe um aviso, escapa numa embarcação e, depois que as águas baixam, a vida recomeça. Isso torna a comparação interessante. Mas é preciso dar um passo de cada vez: a existência dessas histórias não prova, por si só, que todas falam do mesmo acontecimento nem confirma cada detalhe do relato bíblico.
Em Gênesis 6–9, o dilúvio é apresentado como um julgamento de Deus diante da maldade humana. Deus manda Noé construir uma arca, preserva sua família e animais, e faz as águas cobrirem a terra. Mais tarde, a arca para nas montanhas de Ararate, Noé solta aves pra verificar se a terra estava secando, e Deus estabelece sua aliança com os sobreviventes. O texto não conta apenas uma enchente: ele explica por que ela aconteceu e o que Deus fez depois.
Há relatos de dilúvio fora da Bíblia que merecem atenção especial. Na antiga Mesopotâmia, por exemplo, a *Epopeia de Gilgamesh* e o relato de *Atrahasis* falam de uma grande inundação, de um homem avisado com antecedência e de uma embarcação em que pessoas sobrevivem. No relato de Gilgamesh também aparecem aves soltas após a inundação. São semelhanças específicas, e seria estranho fingir que não existem. Ao mesmo tempo, há diferenças importantes, sobretudo na maneira como esses textos apresentam os deuses e o motivo do dilúvio.
Também existem tradições de inundação em outras regiões do mundo. Só que elas não contam todas a mesma história. Algumas falam de poucos sobreviventes; outras, de uma comunidade inteira. Às vezes há uma embarcação, às vezes as pessoas escapam subindo a um lugar alto. Nem sempre está claro se a inundação foi entendida como mundial ou como uma catástrofe que atingiu todo o mundo conhecido por aquele povo.
Por isso, frases como “todas as nações lembram o dilúvio de Noé” vão além do que podemos demonstrar. O número de relatos citado também depende de como eles são contados: versões da mesma tradição podem aparecer como histórias separadas. E um detalhe parecido com Gênesis não basta pra estabelecer a origem de um relato. Antes de tirar essa conclusão, é preciso saber quando ele foi registrado e se o povo que o contou já tinha tido contato com a história bíblica.
Então, o que essas tradições mostram? Elas mostram que grandes inundações marcaram profundamente a memória de muitos povos. É possível que algumas histórias preservem lembranças de um acontecimento antigo compartilhado. Também é possível que outras tenham surgido de enchentes diferentes, ou tenham sido influenciadas por histórias que circularam entre povos. As tradições, sozinhas, não permitem decidir com segurança entre todas essas possibilidades. Tampouco demonstram que Gênesis copiou os relatos mesopotâmicos, ou que esses relatos copiaram Gênesis: a relação histórica entre eles exige mais cuidado do que isso.
A resposta, portanto, é sim e não. Sim, há numerosas histórias de dilúvio, e algumas se parecem de modo notável com Gênesis. Elas são compatíveis com a ideia de que uma grande inundação deixou lembranças transmitidas ao longo do tempo. Não, elas não funcionam como uma prova independente e conclusiva de que o dilúvio ocorreu exatamente como Gênesis descreve, nem de que todas as histórias vieram daquele mesmo evento.
Pra quem lê a Bíblia como Palavra de Deus, a importância de Gênesis não depende de uma contagem de lendas. O próprio texto ensina que Deus leva a sério a maldade humana, mas também mostrou misericórdia ao preservar Noé e sua família. As histórias de outros povos podem levar alguém a examinar esse relato com interesse; é em Gênesis 6–9 que encontramos o que a Bíblia de fato afirma sobre o dilúvio.