“Olho por olho, dente por dente” é a forma mais conhecida da lei da retribuição. Na Lei dada a Israel, ela estabelecia que a resposta a uma agressão deveria ser proporcional ao dano causado. Se alguém ferisse outra pessoa, não poderia receber uma punição sem medida; se destruísse o animal de outra pessoa, deveria fazer a restituição prevista pela lei. Esse princípio aparece, por exemplo, em Êxodo 21:23-25 e Levítico 24:19-21.
Isso não era uma autorização pra cada pessoa se vingar como quisesse. A própria Lei dizia aos israelitas que não guardassem ódio nem procurassem vingança pessoal (Levítico 19:17-18). A diferença é importante: fazer justiça é apurar o que aconteceu e aplicar uma resposta justa; vingar-se é tomar essa decisão por conta própria, movido pela ofensa recebida.
Essa preocupação aparece claramente no caso de uma morte. A Lei distinguia o assassinato da morte causada sem intenção. Havia cidades de refúgio onde quem tivesse causado uma morte podia se abrigar até que o caso fosse examinado pela comunidade (Números 35:9-25). A família da vítima tinha um papel previsto naquela sociedade, mas não cabia tratar toda morte como assassinato nem ignorar o julgamento.
E por que Jesus disse que não devemos agir segundo o “olho por olho”? Em Mateus 5:38-48, ele ensina seus seguidores a não transformar uma ofensa pessoal em motivo pra revidar. Em vez de alimentar a vingança, devem amar até os inimigos. Jesus não está dizendo que crimes não importam ou que ninguém deve ser responsabilizado. Ele está ensinando como seus seguidores devem tratar quem lhes faz mal.
Paulo faz uma distinção parecida. Ele orienta os cristãos a não pagarem o mal com o mal nem fazerem justiça com as próprias mãos (Romanos 12:17-21). Logo depois, reconhece a responsabilidade das autoridades de punir quem pratica o mal (Romanos 13:1-4). Isso não significa que toda decisão de um governo seja justa; significa que abrir mão da vingança pessoal não é o mesmo que acabar com a justiça pública.
Em resumo, a lei da retribuição estabelecia um limite justo pra resposta ao crime na antiga Israel. Ela não ensinava que uma pessoa ofendida devia devolver o mal que recebeu. Pra quem segue Jesus, o caminho pessoal é abandonar a vingança e buscar a paz, sem confundir perdão com a ideia de que o mal não deve ser levado a sério.