Provavelmente, sim. Joel 1:4 parece descrever uma praga real de gafanhotos que destruiu as plantações de Judá. O profeta apresenta o desastre como algo que o povo já podia ver: faltavam grãos, vinho e azeite; os agricultores lamentavam a perda da colheita; e os sacerdotes já não tinham o que oferecer nas ofertas feitas com os produtos da terra (Joel 1:10-13).
O versículo usa quatro nomes para falar dos gafanhotos e da destruição que causaram. Não é preciso concluir que eram quatro espécies diferentes, nem que chegaram em exatamente quatro ondas. O sentido é claro: o que restava depois de um grupo era consumido pelo seguinte. A lavoura foi praticamente toda destruída.
Quanto à data, não sabemos. O livro não informa o ano da praga, e os estudiosos não concordam sobre quando Joel viveu. Por isso, não dá pra afirmar que Joel 1:4 se cumpriu por volta de 845 a.C. O mais seguro é dizer que, no capítulo 1, Joel trata de uma calamidade que o povo estava enfrentando, sem que possamos datá-la com precisão.
Mas Joel não fala dos gafanhotos apenas pra registrar uma perda agrícola. Ele chama o povo a se voltar pra Deus e usa aquele desastre pra alertar sobre o Dia do Senhor — o dia em que Deus agiria em julgamento (Joel 1:14-15). No capítulo 2, a linguagem passa a lembrar também a chegada de um exército (Joel 2:4-9). Cristãos que levam a Bíblia a sério entendem essa parte de maneiras diferentes: alguns veem ali outra descrição da praga, com linguagem de guerra; outros entendem que Joel passa a anunciar uma invasão inimiga. Essa diferença não muda o ponto principal de Joel 1:4: a destruição das plantações é apresentada como uma calamidade real, usada pelo profeta como um alerta.
Também não devemos tratar todas as palavras de Joel como se tivessem se cumprido naquela praga. Mais adiante, o livro fala do derramamento do Espírito, passagem que Pedro relacionou ao que aconteceu no Pentecostes (Joel 2:28-32; Atos 2:16-21), e fala do julgamento das nações (Joel 3). Assim, a praga de gafanhotos pertence ao contexto imediato de Joel 1:4, mas o livro usa aquele acontecimento pra falar de coisas que vão além dele.