A história da mulher acusada de adultério aparece em muitas Bíblias, mas há uma dúvida importante sobre ela: tudo indica que não fazia parte do texto que João escreveu originalmente. Por isso, várias traduções a mantêm, mas avisam em uma nota que ela não aparece nos manuscritos mais antigos do Evangelho.
Como podemos saber disso, se não temos o manuscrito escrito pela própria mão de João? Comparando as cópias antigas que chegaram até nós. A passagem está ausente de alguns dos manuscritos gregos mais antigos e importantes de João. Ela aparece em muitas cópias posteriores, mas nem sempre no mesmo lugar: algumas a colocam em outra parte de João, e outras, no Evangelho de Lucas. Isso sugere que a história circulou por algum tempo antes de ser incluída nas cópias dos Evangelhos.
Há também sinais no próprio texto. A história usa palavras pouco comuns em João e interrompe a sequência entre João 7:52 e 8:12. Esses sinais, sozinhos, não resolveriam a questão. Juntos com as evidências dos manuscritos, porém, dão um motivo forte pra entender que João 7:53–8:11 foi acrescentado depois ao Evangelho.
Isso não prova que a história seja falsa. Ela pode preservar uma lembrança antiga de algo que Jesus realmente fez; não temos como afirmar isso com segurança. O cuidado necessário é distinguir duas perguntas: “Esse acontecimento pode ter ocorrido?” e “João escreveu essa passagem?” As evidências são bem mais fortes pra responder à segunda: provavelmente não.
Também não é preciso concluir que quem a incluiu numa cópia queria enganar alguém. Não sabemos ao certo como ela passou a fazer parte do texto. E a ideia de que teria sido retirada dos manuscritos antigos porque alguém achou Jesus permissivo demais com o adultério é uma hipótese, não um fato demonstrado. Na própria história, Jesus não trata o pecado como algo sem importância: ele impede a condenação daquela mulher por seus acusadores e a orienta a abandonar o pecado.
Então, faz sentido ler a passagem com respeito, sabendo que ela está presente em muitas Bíblias e foi conhecida por cristãos durante séculos. Mas não é prudente usá-la sozinha como fundamento de uma doutrina, como se tivéssemos certeza de que João a escreveu. O perdão de Jesus e seu chamado ao arrependimento, por exemplo, aparecem claramente em outras partes do Novo Testamento, sem depender dessa história.
Essa dúvida não significa que precisamos desconfiar da Bíblia inteira. Justamente porque existem muitas cópias antigas, é possível compará-las e apontar com honestidade onde há uma diferença importante. Nesse caso, o aviso nas traduções ajuda o leitor a saber o que as evidências permitem afirmar — e o que ainda não podemos afirmar com certeza.