Porque a Páscoa e o Dia da Expiação mostravam coisas diferentes que Jesus realizou na mesma morte. A data em que ele morreu ajuda a entender o significado de seu sacrifício, mas não limita o que esse sacrifício fez.
Na primeira Páscoa, os israelitas ainda estavam no Egito. Deus anunciou que os primogênitos morreriam naquela noite e mandou cada família separar um cordeiro e colocar seu sangue na entrada da casa. Quando veio o julgamento, as famílias protegidas por aquele sangue foram poupadas. Depois, Israel saiu da escravidão (Êxodo 12). Por isso, a Páscoa lembrava duas coisas inseparáveis: livramento da morte e libertação do Egito.
O Novo Testamento vê nessa história uma ligação com Jesus. Paulo o chama de nosso cordeiro pascal (1 Coríntios 5:7). Assim como o sangue do cordeiro marcou o livramento daquelas famílias, a morte de Cristo torna possível um livramento maior pra quem confia nele. Não se trata apenas de escapar de uma morte naquela noite, mas de receber perdão e uma nova vida.
O Dia da Expiação, por sua vez, tratava diretamente dos pecados de Israel. Uma vez por ano, o sumo sacerdote entrava no lugar mais santo do tabernáculo com sangue oferecido por causa dos pecados do povo (Levítico 16). A carta aos Hebreus usa essa cerimônia pra explicar a obra de Jesus: ele não levou o sangue de outro sacrifício, nem precisou repetir sua oferta todos os anos. Ele ofereceu a si mesmo, de uma vez por todas (Hebreus 9:11-14, 24-28; 10:11-14).
Então é bom manter uma distinção. O cordeiro da Páscoa, em Êxodo 12, não era apresentado como o sacrifício anual pelos pecados descrito em Levítico 16. A Páscoa destacava o livramento; o Dia da Expiação destacava como o povo podia ser tratado por Deus apesar de seus pecados. Mas não precisamos escolher uma imagem e descartar a outra. Jesus nos livra justamente porque lidou com o pecado que nos separava de Deus. Pedro diz que ele levou nossos pecados em seu corpo na cruz (1 Pedro 2:24).
Jesus morreu no período da Páscoa, e isso nos ajuda a reconhecer nele o Cordeiro que traz livramento. Ao mesmo tempo, o que ele fez cumpre aquilo que o Dia da Expiação apontava: um sacrifício pelo pecado que não precisa ser repetido. Ele não precisava morrer na data dessa cerimônia pra realizar o que ela representava. Sua morte foi uma só; as duas celebrações nos ajudam a entender por que ela importa.