Jesus não é considerado um mito pela grande maioria dos historiadores que estudam a Antiguidade. Há boas razões pra afirmar que ele viveu na Judeia do primeiro século e foi crucificado sob o governo de Pôncio Pilatos. Outra pergunta, mais profunda, é se tudo o que o Novo Testamento diz sobre ele é verdade — especialmente sua ressurreição. A existência histórica de Jesus, por si só, não resolve essa segunda questão.
A ideia de que sua história foi simplesmente copiada de deuses antigos costuma aparecer em listas de semelhanças: um deus teria nascido de uma virgem, reunido doze discípulos, morrido e ressuscitado três dias depois. Mas, quando se procura essas informações nos relatos antigos, muitas não aparecem. Outras usam a mesma palavra pra acontecimentos bem diferentes.
Hórus, por exemplo, era um deus egípcio ligado a Ísis e Osíris. Existem versões diferentes de seus mitos, mas não encontramos neles a história de uma mãe chamada Maria, doze discípulos ou uma crucificação seguida de ressurreição ao terceiro dia. Já Mitra, cultuado no mundo romano, aparece nas representações de seu culto saindo de uma rocha, não nascendo de uma virgem. Seus relatos também não contam que ele foi crucificado e ressuscitou. E uma comparação muito repetida começa com um erro sobre o próprio Jesus: os Evangelhos não dizem que ele nasceu em 25 de dezembro.
Isso não quer dizer que as religiões antigas não tenham temas em comum. Elas falam de vida, morte, esperança e ação divina. Mas encontrar um tema parecido não prova que uma história foi copiada de outra. Pra sustentar essa conclusão, seria preciso mostrar que o relato pagão já existia daquela forma antes dos textos cristãos e que há bons motivos pra pensar que os autores cristãos se basearam nele. Uma lista de semelhanças, sozinha, não mostra isso.
Também importa observar como a mensagem sobre Jesus começou. Os primeiros cristãos eram judeus. Eles apresentavam Jesus como o cumprimento das Escrituras de Israel, não como um novo personagem dos mitos gregos ou egípcios. Paulo, em uma de suas cartas mais antigas, registra uma mensagem que já circulava entre os cristãos: Cristo morreu, foi sepultado, ressuscitou e apareceu a pessoas que seus seguidores identificavam como testemunhas (1 Coríntios 15:3-8). Mesmo quem não aceita a ressurreição como fato precisa reconhecer que essa crença surgiu cedo; ela não apareceu apenas séculos depois.
Há, portanto, uma distinção importante. A pesquisa histórica pode examinar se Jesus viveu, foi crucificado e quando seus seguidores passaram a anunciar sua ressurreição. Ela não pode demonstrar um milagre da mesma maneira que confirma a existência de uma pessoa ou a data de um documento. A fé cristã afirma que Deus realmente ressuscitou Jesus, e o Novo Testamento trata isso como o centro da sua mensagem, não como um detalhe emprestado de outra religião (1 Coríntios 15:12-20).
Então a resposta é: não há bons fundamentos pra dizer que Jesus foi inventado como cópia de deuses pagãos. As comparações mais famosas não correspondem bem aos relatos antigos, e a existência de Jesus é historicamente bem sustentada. A questão que permanece é o que fazer com a afirmação dos primeiros cristãos de que aquele homem crucificado ressuscitou.