A dúvida é compreensível: Jesus disse aos irmãos que não iria à festa, mas depois foi. Lido sozinho, isso parece uma contradição. O restante da conversa, porém, mostra que a questão era quando e de que maneira ele iria.
A Festa dos Tabernáculos estava chegando, e os irmãos de Jesus queriam que ele fosse à Judeia e mostrasse seus feitos em público. João explica que, naquele momento, eles não criam nele (João 7:2-5). Jesus respondeu que o tempo dele ainda não havia chegado, enquanto eles podiam ir quando quisessem. Então mandou que fossem à festa e disse que ele não iria, pois seu tempo ainda não havia se cumprido (João 7:6-8).
Depois que os irmãos partiram, Jesus permaneceu na Galileia por algum tempo. Só então foi à festa, sem se apresentar publicamente na viagem. Mais tarde, já durante a festa, começou a ensinar no templo (João 7:9-10, 14). Portanto, ele não fez o que os irmãos estavam propondo: não foi com eles nem apareceu do modo e no momento que eles queriam.
Existe um detalhe no texto que merece cuidado. Em João 7:8, alguns manuscritos trazem uma palavra equivalente a “ainda”, de modo que a fala de Jesus fica: ele *ainda não* iria à festa. Outros manuscritos não trazem essa palavra. Mesmo sem ela, a explicação anterior de Jesus — de que seu tempo ainda não havia chegado — e a sequência dos acontecimentos ajudam a entender sua resposta. Não é preciso depender de uma única palavra para resolver a dúvida.
Também não precisamos concluir que Jesus mudou de ideia ou inventar uma razão que João não contou. O evangelho mostra o contraste entre o pedido dos irmãos e o que Jesus decidiu fazer: eles queriam uma aparição pública imediata; ele esperou e foi depois. João não diz que os irmãos soubessem de antemão que Jesus iria mais tarde, mas nos dá contexto suficiente pra entender que a resposta dele não era uma promessa de nunca comparecer à festa.
Assim, João 7:8-10 não apresenta Jesus mentindo aos irmãos. Apresenta Jesus recusando-se a seguir os planos deles e escolhendo o momento de agir.