Não. Existem alguns pontos que podem lembrar um ao outro, especialmente quando o assunto é vinho. Mas uma semelhança não basta pra concluir que a história de Jesus foi copiada da de Dionísio. Pra afirmar isso, seria preciso mostrar que os primeiros cristãos conheciam uma versão específica do mito e a usaram pra criar os relatos sobre Jesus. Essa ligação não foi demonstrada.
Dionísio era um deus da mitologia grega associado ao vinho, às festas e ao teatro. Jesus, por sua vez, transformou água em vinho numa festa de casamento, segundo João 2:1-11. Esse é o paralelo mais fácil de perceber. E há, sim, histórias antigas que associam Dionísio a acontecimentos extraordinários envolvendo vinho. Por isso, seria errado dizer que não existe nenhuma semelhança. A pergunta é o que essa semelhança prova.
No Evangelho de João, o milagre de Jesus não o apresenta como um deus do vinho. Ele acontece num casamento, atende a uma necessidade concreta dos anfitriões e leva os discípulos a reconhecer quem Jesus é (João 2:11). Além disso, o vinho já aparecia nas Escrituras de Israel como parte das celebrações e como imagem da alegria prometida por Deus (Isaías 25:6; Amós 9:13-14). Assim, o episódio pode ser entendido dentro do mundo religioso judaico em que Jesus viveu, sem precisar supor que foi tirado do culto a Dionísio.
Outras comparações são ainda menos precisas. Às vezes se diz que Dionísio, assim como Jesus, nasceu de uma virgem. Mas as histórias gregas sobre seu nascimento não contam isso. Uma das versões mais conhecidas diz que ele era filho de Zeus e de Sêmele. Já os relatos cristãos dizem que Maria concebeu Jesus sem ter tido relações sexuais (Mateus 1:18-25; Lucas 1:26-35). Não são duas maneiras de contar o mesmo nascimento.
Também se fala que os dois morreram e ressuscitaram. Aqui é importante não misturar versões diferentes do mito de Dionísio. Em algumas tradições, ele é despedaçado e depois retorna à vida de alguma forma; os detalhes variam. Isso merece ser reconhecido, mas não é o mesmo relato que os primeiros cristãos faziam sobre Jesus: uma pessoa que viveu entre eles, foi executada sob Pôncio Pilatos, foi sepultada e, segundo seu testemunho, apareceu viva depois da morte (1 Coríntios 15:3-8). Além disso, a esperança da ressurreição já fazia parte do pensamento judaico antes de Jesus (Daniel 12:2).
Há ainda uma diferença essencial entre duas perguntas que costumam ser tratadas como se fossem uma só. Jesus existiu? E ele ressuscitou? A existência histórica de Jesus é amplamente aceita por estudiosos da Antiguidade, inclusive os que não são cristãos. A ressurreição é a afirmação central da fé cristã e precisa ser examinada por seus próprios fundamentos. Não se prova nem se refuta a ressurreição apenas apontando semelhanças com um mito.
Os relatos cristãos também surgiram cedo. Em 1 Coríntios 15:3-8, Paulo registra o anúncio da morte, do sepultamento e da ressurreição de Jesus e menciona pessoas que, segundo ele, o viram vivo. Isso não encerra toda a discussão histórica, mas mostra que a ressurreição não foi uma ideia acrescentada ao cristianismo muitos séculos depois. Ao mesmo tempo, não é correto afirmar que uma história não poderia ganhar elementos lendários em poucas décadas. O argumento mais cuidadoso é outro: pra defender a hipótese de cópia, é preciso apresentar provas de dependência entre os relatos, não apenas algumas semelhanças.
Os primeiros seguidores de Jesus eram judeus. Eles anunciavam que Deus havia cumprido suas promessas a Israel por meio de Jesus, o Messias crucificado e ressuscitado (Atos 2:22-36). Isso não torna impossível qualquer contato com ideias gregas: judeus e gregos conviviam no mundo romano. Mas ajuda a explicar por que os cristãos falavam de Jesus usando as Escrituras de Israel. Esse é o contexto que aparece de forma clara e constante nos textos do Novo Testamento.
Portanto, a resposta não precisa negar toda semelhança entre Jesus e Dionísio. Precisa apenas dar a ela o peso certo. Há pontos que podem ser comparados, sobretudo o vinho e, em certas versões do mito, o retorno à vida. Mas os relatos são diferentes, têm contextos diferentes e não há evidência suficiente pra dizer que Jesus foi criado como uma cópia de Dionísio. A questão mais importante continua sendo examinar o que os primeiros testemunhos afirmam sobre Jesus e se há boas razões pra acreditar neles.