Israel e a igreja não são simplesmente a mesma coisa. Na Bíblia, Israel é o povo que descende de Abraão, Isaque e Jacó, a quem Deus fez promessas ao longo do Antigo Testamento. A igreja é formada por pessoas que pertencem a Jesus Cristo, tanto judeus quanto não judeus. Há, portanto, judeus que fazem parte da igreja. Mas isso não significa que todo israelita faça parte dela, nem que os cristãos de outras nações se tornem judeus.
Essa distinção ajuda a entender a segunda pergunta: Deus não abandonou Israel. Paulo trata disso diretamente em Romanos 11. Ele mesmo era israelita e seguidor de Jesus. Por isso, sua vida já mostrava que Deus continuava chamando judeus pra crer no Messias. Paulo também diz que a rejeição de Jesus por muitos israelitas não é o fim da história desse povo (Romanos 11:1-2, 25-29).
Como Israel e a igreja se relacionam, então? A resposta começa na promessa feita a Abraão. Deus prometeu formar a partir dele uma nação e, por meio dele, abençoar todas as famílias da terra (Gênesis 12:1-3). Jesus veio da descendência de Abraão, e é por meio dele que essa bênção chega a pessoas de todas as nações. Por isso, Paulo ensina que quem pertence a Cristo também é considerado descendente de Abraão no sentido de participar da promessa recebida pela fé (Gálatas 3:7-9, 26-29). Isso não muda a origem de ninguém. Um cristão não judeu participa da bênção prometida a Abraão sem se tornar israelita de nascimento.
A imagem da oliveira, em Romanos 11, torna essa relação mais clara. Paulo fala de ramos naturais, ligados a Israel, e de ramos de uma oliveira silvestre, ligados aos não judeus que passaram a participar da bênção de Deus. Alguns ramos foram cortados por causa da incredulidade, e outros foram enxertados pela fé. Mas Paulo avisa aos cristãos não judeus que não se considerem superiores: eles não sustentam a raiz; é a raiz que os sustenta (Romanos 11:17-24). Em outras palavras, participar das promessas por meio de Cristo não dá à igreja motivo pra desprezar o povo judeu.
Isso também mostra que há um só caminho de salvação. Judeus e não judeus precisam de Jesus. Ninguém é salvo apenas por pertencer a Israel, assim como ninguém é salvo apenas por estar ligado a uma igreja. Deus recebe pela fé aqueles que vêm a Cristo (Romanos 3:22-24; 10:9-13).
E quanto ao futuro de Israel? Em Romanos 11, Paulo afirma que o endurecimento de parte de Israel é temporário e fala de uma futura salvação de “todo o Israel” (Romanos 11:25-27). Cristãos que reconhecem a autoridade da Bíblia entendem essa expressão de maneiras diferentes. Muitos veem nela a promessa de uma ampla conversão futura do povo judeu a Jesus. Outros entendem que Paulo está falando do conjunto dos israelitas que Deus salva ao longo da história. Também há divergências sobre como as promessas referentes à terra e ao reino se cumprirão: alguns esperam um cumprimento futuro específico pra Israel; outros entendem que essas promessas alcançam seu cumprimento final em Cristo e no povo que pertence a ele.
Essas diferenças são importantes, mas não devem esconder o que Paulo deixa claro. A incredulidade de muitos israelitas não tornou Deus infiel às suas promessas, e os cristãos de outras nações não têm razão pra se colocar acima deles (Romanos 11:18, 28-29). Assim, não precisamos dizer que Israel e a igreja são idênticos pra reconhecer que Deus está formando, em Cristo, um povo de judeus e não judeus. E não precisamos resolver cada detalhe das promessas futuras pra afirmar que Deus ainda não terminou sua história com Israel.