Judas está falando de pessoas que tratavam os seres espirituais com arrogância, falando deles de modo ofensivo e sem entender bem o assunto. A preocupação dele não é ensinar os cristãos a honrar o diabo ou a ter medo de anjos. É mostrar como aqueles falsos mestres se achavam no direito de falar com uma autoridade que não tinham.
Na carta, Judas adverte a igreja sobre pessoas que usavam seus sonhos pra justificar uma vida imoral. Elas rejeitavam a autoridade e insultavam os seres que ele chama de “gloriosos” (Judas 1:8). No versículo 10, Judas acrescenta que elas falavam mal daquilo que não conheciam. Portanto, o problema não era apenas uma palavra ofensiva: era a atitude de quem desprezava o que não entendia e agia como se não devesse satisfação a ninguém.
O exemplo que vem logo depois ajuda a perceber o contraste. Judas menciona uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo a respeito do corpo de Moisés. Ele não explica os detalhes dessa disputa, então não precisamos tentar completá-los. O ponto dele é claro: nem Miguel, embora fosse um anjo poderoso, tomou pra si a tarefa de pronunciar uma condenação ofensiva contra o diabo. Ele deixou o julgamento nas mãos do Senhor (Judas 1:9). Se Miguel agiu assim, quanto mais cuidado deveriam ter aquelas pessoas que falavam com tanta presunção.
Isso não significa que o diabo mereça admiração ou que o mal não deva ser denunciado. A própria Bíblia o identifica como adversário de Deus. A diferença está entre reconhecer e resistir ao mal, como os cristãos são chamados a fazer, e agir como se tivéssemos autoridade própria pra julgar ou afrontar seres espirituais.
Há uma dificuldade na expressão “gloriosos seres celestiais”: Judas não diz exatamente quais seres os falsos mestres insultavam. O exemplo de Miguel e do diabo leva alguns leitores a pensar que eles falavam de maneira arrogante contra poderes espirituais malignos. Outros entendem que a expressão também pode se referir a anjos. Não dá pra afirmar com certeza, só com base nesse trecho, quem eram todos os alvos dos insultos.
A lição principal, porém, não depende dessa identificação. Judas condena a arrogância de quem fala sobre o mundo espiritual sem conhecimento e rejeita a autoridade de Deus. O caminho que ele apresenta é outro: levar o mal a sério, sem se intimidar com ele, e confiar que o julgamento pertence ao Senhor.