A Bíblia não ensina expressamente que o papa possa fazer declarações infalíveis. Ela mostra que Pedro teve um papel importante entre os apóstolos, mas não afirma que os bispos de Roma herdariam dele a capacidade de definir, sem erro, doutrinas obrigatórias pra toda a igreja. Essa é a principal razão pela qual cristãos evangélicos não aceitam a infalibilidade papal.
Antes de examinar os textos bíblicos, vale esclarecer o que a Igreja Católica quer dizer com essa expressão. Ela não ensina que o papa nunca erra, nem que toda fala ou decisão dele é infalível. A afirmação é mais restrita: em determinadas condições, quando ele define oficialmente uma doutrina sobre fé ou moral que deve ser aceita por toda a Igreja, Deus o preservaria do erro.
O ponto discutido, portanto, não é se Deus pode ajudar líderes cristãos a ensinar a verdade. A Bíblia mostra que ele faz isso. A pergunta é se Deus prometeu essa proteção especial ao papa.
Jesus disse a Pedro que edificaria sua igreja e lhe daria as “chaves do Reino” (Mateus 16:18-19). Depois da ressurreição, confiou a ele o cuidado de suas ovelhas (João 21:15-17). Católicos veem nessas passagens parte do fundamento para a autoridade do papa. E elas realmente não devem ser descartadas: Pedro aparece como uma figura de destaque no começo da igreja.
Mas há uma diferença entre reconhecer a importância de Pedro e concluir que ele recebeu uma autoridade infalível, transmissível aos futuros bispos de Roma. Esses textos não dizem isso. Além disso, Jesus também fala aos discípulos sobre a autoridade de “ligar e desligar” em Mateus 18:18. No concílio relatado em Atos 15, Pedro participa da discussão, mas a decisão é apresentada como uma decisão conjunta dos apóstolos e presbíteros. Em Gálatas 2:11-14, Paulo relata que precisou confrontá-lo por sua conduta. Esse episódio, por si só, não refuta a doutrina católica — que não afirma que Pedro fosse incapaz de errar em suas ações —, mas mostra que ter destaque na igreja não tornava Pedro imune à correção.
Há ainda a questão de quem veio depois dos apóstolos. O Novo Testamento manda preparar pessoas fiéis pra ensinar outras e mostra igrejas recebendo líderes (2 Timóteo 2:2; Tito 1:5). Isso mostra a importância de preservar e transmitir o ensino cristão. Não mostra, porém, que esses líderes herdariam uma capacidade de fazer definições sem erro, nem estabelece que essa capacidade pertenceria especialmente ao bispo de Roma.
Isso não significa que a igreja deva ficar sem pastores ou que cada pessoa possa interpretar a Bíblia sem ouvir ninguém. Cristo dá à igreja pessoas que ensinam e ajudam os cristãos a crescer na fé (Efésios 4:11-16). A questão é que esses mestres também precisam ser avaliados à luz da mensagem recebida. Paulo advertiu que até líderes da igreja poderiam ensinar coisas erradas e, por isso, confiou os cristãos a Deus e à palavra da sua graça (Atos 20:28-32). Ele também disse que nem mesmo a autoridade de quem anuncia uma mensagem deve fazer a igreja aceitar um evangelho diferente daquele que já recebeu (Gálatas 1:8-9).
Do ponto de vista evangélico, a igreja precisa de ensino fiel, mas não de um líder humano capaz de emitir decisões infalíveis. Deus nos deu as Escrituras, que podem nos instruir pra salvação e nos preparar pra viver segundo sua vontade (2 Timóteo 3:15-17). O Espírito Santo atua na igreja, e Cristo continua cuidando do seu povo. Isso não quer dizer que os cristãos nunca discordarão ou cometerão erros. Quer dizer que a certeza da fé não depende de uma promessa de infalibilidade feita a um papa — promessa que o Novo Testamento não apresenta.
Assim, a resposta é: não há fundamento bíblico suficiente pra afirmar a infalibilidade papal. Um católico pode defender essa doutrina recorrendo à maneira como sua Igreja entende a autoridade recebida de Cristo e transmitida ao longo da história. Mas, se a pergunta é se a Bíblia ensina claramente que o papa pode definir doutrinas sem erro, a resposta é não.