Uma indulgência, no ensino da Igreja Católica, não é o perdão de um pecado. Ela se refere ao que a Igreja chama de *pena temporal*: uma consequência do pecado que, segundo esse ensino, ainda pode precisar de purificação mesmo depois que a culpa já foi perdoada. A indulgência parcial remove parte dessa pena; a plenária, toda ela.
Por isso, a Igreja Católica estabelece condições pra recebê-las. Uma indulgência plenária, por exemplo, está ligada a uma prática determinada, como uma oração, e requer também confissão, comunhão, oração pelas intenções do papa e disposição de abandonar o apego ao pecado. No entendimento católico, indulgências também podem ser aplicadas em favor de pessoas que morreram e estariam no purgatório. Elas não são apresentadas como permissão pra pecar nem como uma forma de comprar o perdão de Deus.
A dúvida bíblica está em outro ponto: a Bíblia ensina que, depois de perdoar alguém, Deus deixa uma pena espiritual que a Igreja pode remover por meio de indulgências? Na compreensão evangélica, não. O Novo Testamento ensina que Jesus ofereceu o sacrifício necessário pelos pecados, de uma vez por todas, e que não há condenação para quem está nele (Hebreus 10:10-18; Romanos 8:1). Ele não descreve os apóstolos concedendo indulgências, nem apresenta um conjunto de méritos de Cristo e dos santos que a Igreja distribua pra reduzir penas após o perdão.
Isso não quer dizer que o pecado perdoado fique sem consequências. Davi, por exemplo, recebeu de Deus a notícia de que seu pecado tinha sido perdoado, mas ainda enfrentou consequências dolorosas pelo que fez (2 Samuel 12:13-14). A Bíblia também ensina que Deus disciplina seus filhos pra ajudá-los a crescer (Hebreus 12:5-11). Perdão não apaga automaticamente tudo o que o pecado causou. Mas enfrentar consequências e receber a disciplina de Deus não é a mesma coisa que pagar uma dívida espiritual por meio de indulgências.
Algumas passagens são usadas em defesa da ideia de uma purificação depois da morte, especialmente 1 Coríntios 3:10-15. Ali, Paulo fala de uma obra que será provada pelo fogo e de alguém que sofrerá perda, embora seja salvo. Há cristãos que entendem essa passagem como apoio à purificação após a morte. Outros observam que o assunto imediato é a avaliação daquilo que cada pessoa construiu sobre o fundamento que é Cristo, não uma explicação sobre purgatório ou indulgências. Católicos e evangélicos também diferem quanto à autoridade de 2 Macabeus, outro livro citado nessa discussão.
Portanto, indulgências são uma doutrina da Igreja Católica, mas não um ensino apresentado diretamente na Bíblia. A diferença principal não está em reconhecer que o pecado tem consequências — a Bíblia reconhece. Está em afirmar que existe uma pena espiritual restante, mesmo após o perdão, e que a Igreja pode reduzi-la ou removê-la. A resposta evangélica é confiar na obra completa de Cristo para nossa reconciliação com Deus e, por gratidão, levar o pecado a sério, arrepender-se e reparar, quando possível, o mal causado (Efésios 2:8-10; Lucas 19:8-9).