Inculturação é a tentativa de comunicar e viver a fé cristã dentro de uma cultura, de um jeito que as pessoas daquela cultura consigam entender. A Bíblia mostra que isso pode ser bom e necessário. O cuidado é não mudar a mensagem de Jesus nem aceitar uma prática contrária a ela só porque essa prática faz parte de uma tradição.
Pense na diferença entre *traduzir* o evangelho e *alterar* o evangelho. Traduzir é falar na língua das pessoas, usar exemplos que elas entendem e permitir que expressem sua fé de maneiras próprias do lugar onde vivem. Alterar seria deixar de falar sobre arrependimento, por exemplo, ou tratar a adoração a outros deuses como se fosse uma forma de adorar ao Deus da Bíblia.
Paulo nos ajuda a enxergar essa diferença. Ao falar com os atenienses, ele partiu de algo que havia visto na cidade: um altar dedicado a um deus que eles não conheciam. Também citou autores conhecidos por seus ouvintes. Mas Paulo não disse que a religião deles já estava certa. Usou aquele ponto de partida pra explicar quem é Deus: o Criador, que não depende de templos feitos por pessoas e que chama todos ao arrependimento. Depois anunciou que Deus julgaria o mundo por meio de Jesus, a quem ressuscitou dos mortos (Atos 17:22-31). Ele falou de um jeito que os atenienses podiam acompanhar, sem esconder aquilo que talvez rejeitassem.
Esse cuidado aparece também em outra atitude de Paulo. Ele procurava se aproximar das pessoas que queria alcançar, sem deixar de obedecer a Cristo (1 Coríntios 9:19-23). Aproximar-se de alguém, portanto, não exige concordar com tudo o que essa pessoa faz ou crê.
A própria igreja do primeiro século precisou lidar com uma questão parecida. Muitos não judeus estavam se tornando cristãos. Eles precisariam adotar os costumes religiosos dos judeus pra seguir Jesus? Os apóstolos decidiram que não deveriam impor a eles esse peso, mas também os orientaram a se afastar da idolatria (Atos 15:1-29). Isso nos mostra os dois lados do cuidado: não exigir que todos os cristãos tenham os mesmos costumes culturais e não chamar de aceitável aquilo que contraria a fé em Cristo.
Então, a pergunta prática não é simplesmente: “Esse costume pertence a outra cultura?” É: “Podemos praticá-lo como seguidores de Jesus sem negar o que ele ensinou?” Uma língua, um estilo de música ou uma maneira local de receber as pessoas podem ajudar uma comunidade a expressar sua fé. Já participar da adoração a outros deuses não é apenas uma diferença cultural; a Bíblia orienta os cristãos a fugir da idolatria (1 Coríntios 10:14-22). E há costumes cujo significado depende do lugar e da situação. Nesses casos, é preciso conhecer bem a prática antes de julgá-la.
A palavra *inculturação* pode ser usada de maneiras diferentes por igrejas diferentes, inclusive em debates sobre cultos e tradições locais. Por isso, não basta aprovar ou rejeitar tudo o que recebe esse nome. A comunicação do evangelho deve levar a cultura das pessoas a sério, mas é o evangelho que deve orientar a igreja — não o contrário.