Honrar pai e mãe não significa aceitar maus-tratos. Você pode reconhecer que seus pais têm um lugar importante na sua história e, ao mesmo tempo, dizer com clareza que o que fizeram foi errado. Pode até ser necessário se afastar deles pra se proteger ou proteger seus filhos.
A Bíblia manda honrar pai e mãe (Êxodo 20:12). Mas ela também diz aos pais que não tratem seus filhos de um jeito que os prejudique ou desanime (Efésios 6:4; Colossenses 3:21). Essa responsabilidade dos pais importa. Violência, abuso sexual, humilhações constantes e negligência não se tornam aceitáveis porque vieram de alguém da família.
Honrar não é o mesmo que obedecer a tudo. Efésios 6:1 orienta os filhos a obedecer aos pais, mas isso não dá aos pais o direito de exigir silêncio sobre um abuso, nem de colocar um filho em perigo. Quando uma ordem contraria o que é certo diante de Deus, ela não deve ser obedecida (Atos 5:29). E, quando a pessoa já é adulta, honrar seus pais não significa continuar sob o controle deles.
Na prática, honrar um pai ou uma mãe abusivo pode significar falar a verdade sobre o que aconteceu sem inventar acusações, recusar a vingança e deixar aberta a possibilidade de mudança — sem fingir que essa mudança já aconteceu. Se houver contato, você pode estabelecer limites: encerrar uma conversa quando começarem as ofensas, não receber visitas sem aviso ou não deixar seus filhos sozinhos com alguém que representa perigo. Em alguns casos, o limite mais seguro é não manter contato.
Isso também ajuda a entender o perdão. Perdoar não é chamar o abuso de pequeno, retirar uma denúncia, confiar novamente de imediato ou voltar a conviver com quem continua agredindo. A Bíblia chama os cristãos a abandonar a vingança e a buscar o perdão (Romanos 12:19; Efésios 4:32). Pra quem sofreu abuso, porém, lidar com a dor pode levar tempo. Você pode pedir ajuda a Deus com sinceridade, mesmo que hoje não saiba como perdoar. Não precisa dizer que está tudo bem quando não está.
Se um pai ou uma mãe reconhecer o que fez, parar com o abuso e buscar ajuda, talvez seja possível construir uma relação diferente. Mas a reconciliação exige mais do que um pedido de desculpas: exige mudança que possa ser vista com o tempo. E mesmo havendo arrependimento, você não é obrigado a abrir mão de limites necessários pra sua segurança.
Se o abuso está acontecendo agora, a prioridade é ficar em segurança, não descobrir como conviver melhor com ele. Procure uma pessoa confiável e ajuda das autoridades ou dos serviços de proteção da sua região. Se você é menor de idade, conte a um adulto seguro fora da situação. Se há crianças em risco, proteja-as e procure os órgãos responsáveis. Buscar ajuda não é desonrar seus pais; é levar a sério o mal que está acontecendo.
Deus não pede que você chame o mal de bem. Você pode honrar seus pais na medida do que é verdadeiro e seguro, sem lhes dar acesso para ferir você de novo. E não precisa enfrentar sozinho as consequências do abuso: apoio de pessoas confiáveis e de profissionais preparados pode fazer parte do cuidado de que você precisa.