Sim. Pessoas homossexuais devem poder entrar numa igreja, ouvir o evangelho, fazer perguntas, buscar ajuda e ser tratadas com respeito. A igreja não é um lugar reservado a quem já resolveu todas as suas lutas. A questão mais difícil é outra: como a igreja deve lidar com relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo entre aqueles que professam seguir a Jesus?
A interpretação cristã histórica entende que Deus criou o casamento como a união de um homem e uma mulher e que as relações sexuais pertencem a essa união. Jesus reafirmou esse entendimento do casamento em Mateus 19:4-6. Além disso, Levítico 18:22, Romanos 1:26-27 e 1 Coríntios 6:9-10 são passagens usadas para fundamentar a conclusão de que relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo não correspondem à vontade de Deus.
Há cristãos que interpretam essas passagens de outra maneira. Eles entendem que os textos condenam práticas abusivas ou situações próprias daquele tempo, mas não um relacionamento fiel entre duas pessoas do mesmo sexo. Essa diferença de interpretação é real. Ainda assim, a leitura histórica observa que Paulo fala dessas relações de modo mais amplo em Romanos 1:26-27, e não apenas de abuso. Por isso, muitas igrejas continuam ensinando que a vida sexual cristã deve se limitar ao casamento entre homem e mulher.
É importante, porém, não confundir sentir atração com praticar um ato. Uma pessoa pode sentir atração por alguém do mesmo sexo sem ter escolhido sentir isso e sem estar vivendo um relacionamento sexual. A Bíblia não autoriza a igreja a tratá-la como se fosse culpada simplesmente por contar essa luta. Ela precisa poder falar com sinceridade, sem medo de ser humilhada. E a igreja precisa oferecer amizade e apoio de verdade, não apenas uma resposta sobre o que ela não deve fazer.
Isso não significa criar uma regra especial pra um grupo. A Bíblia também chama pessoas heterossexuais a deixar o adultério e as relações sexuais fora do casamento. Todos os cristãos são chamados a confiar em Jesus e a abandonar práticas que entendem ser pecado, mesmo quando isso é difícil. Em 1 Coríntios 6:9-11, Paulo menciona vários pecados e depois lembra aos cristãos de Corinto o que Deus havia feito por eles por meio de Cristo. Sua mensagem não é que alguns pecadores podem chegar perto de Deus e outros não. É que ninguém se salva por ter uma vida impecável; todos precisam da graça de Jesus.
Na prática, qualquer pessoa deve ser bem-vinda para participar das reuniões da igreja. Já o reconhecimento de alguém como membro comprometido com o ensino da comunidade envolve fé em Cristo e disposição de viver segundo esse ensino. Numa igreja que entende biblicamente que relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo são pecado, afirmar publicamente esse relacionamento como correto traz uma dificuldade real para a membresia e, ainda mais, para a liderança. Isso deve ser tratado com conversas honestas e cuidado pastoral, não com exposição pública, desprezo ou pressa em julgar. Líderes, além disso, devem ser avaliados pelos critérios de caráter e fidelidade ensinados em 1 Timóteo 3 e Tito 1 — critérios que não se aplicam apenas a esse assunto.
Por fim, a esperança cristã não depende de prometer que a atração de uma pessoa vai desaparecer. A Bíblia não faz essa promessa a todos. O que o evangelho oferece é perdão, a presença de Deus e ajuda pra segui-lo em meio a lutas que podem durar muito tempo.
Assim, uma igreja que segue a interpretação bíblica histórica não precisa escolher entre fidelidade às Escrituras e amor pelas pessoas. Ela deve ensinar com clareza o que crê, aplicar o mesmo chamado ao arrependimento a todos e tratar cada pessoa com a dignidade e o cuidado que ela merece.