Historicismo é uma maneira de ler as profecias bíblicas como uma descrição de acontecimentos que se desenrolam ao longo da história. No caso do Apocalipse, a ideia é que João não estivesse falando apenas do seu tempo nem apenas dos últimos dias. Segundo essa interpretação, as visões do livro mostram, por meio de símbolos, diferentes períodos da história da igreja e do mundo, desde os primeiros cristãos até a volta de Jesus.
Assim, quando o Apocalipse fala de selos, trombetas ou bestas, o historicista procura entender a que acontecimentos, poderes ou movimentos históricos esses símbolos corresponderiam. Um exemplo bastante conhecido vem da Reforma Protestante: vários reformadores identificaram o poder religioso descrito em certas profecias com o papado. Outros intérpretes historicistas relacionaram visões do Apocalipse à queda do Império Romano, à expansão do islamismo ou à própria Reforma. Essas identificações, porém, não são afirmadas diretamente pelo texto bíblico; são interpretações propostas por quem adota esse modo de leitura.
Um bom exemplo das diferenças entre os intérpretes está nas mensagens às sete igrejas, em Apocalipse 2 e 3. As igrejas eram comunidades reais da época de João. Alguns historicistas entendem que, além disso, cada uma representa uma fase sucessiva da história da igreja. Mas o texto não diz expressamente que elas formam uma sequência de sete períodos. Por isso, cristãos que reconhecem a autoridade da Bíblia podem discordar dessa explicação.
É justamente aí que está a principal dificuldade do historicismo. Ele chama atenção, com razão, pra ideia de que Deus conhece o futuro e conduz a história até a volta de Cristo. Mas nem sempre há no próprio Apocalipse uma indicação clara de qual símbolo deve ser ligado a qual acontecimento. Dois historicistas podem concordar que uma visão retrata a história e, ainda assim, discordar sobre o que ela representa. Também é importante lembrar que João escreveu a igrejas do seu tempo (Apocalipse 1:4, 11). Mesmo que o livro fale de acontecimentos futuros, sua mensagem precisava fazer sentido pra aqueles primeiros leitores.
O historicismo é uma entre as principais maneiras cristãs de entender o Apocalipse. De forma resumida, o *preterismo* vê boa parte das visões ligada a acontecimentos próximos da época de João; o *futurismo* entende que muitas delas tratam especialmente dos eventos finais; e o *idealismo* destaca o que as visões ensinam sobre a luta entre o mal e o povo de Deus ao longo de todas as épocas. Essas descrições são gerais: dentro de cada perspectiva há diferenças.
Portanto, a resposta curta é esta: a interpretação historicista lê o Apocalipse como um panorama profético da história, que vai dos primeiros cristãos até o fim. É uma proposta que teve grande importância entre os protestantes, mas as ligações específicas que ela faz entre símbolos e fatos históricos precisam ser avaliadas caso a caso. O que o livro afirma com clareza, independentemente dessas discussões, é que Jesus conhece a situação das suas igrejas, chama seu povo à perseverança e voltará para julgar e renovar todas as coisas (Apocalipse 1:12-18; 21:1-5; 22:12).