A Igreja Ortodoxa não começou em 1054, quando aconteceu a separação entre as igrejas do Oriente e do Ocidente. Suas raízes estão nas primeiras comunidades cristãs, assim como as da Igreja Católica. O que aconteceu ao longo dos séculos foi que essas comunidades, antes ligadas umas às outras, seguiram caminhos diferentes. Pra entender a história da Igreja Ortodoxa, é preciso começar por essa história que elas compartilham.
O livro de Atos conta como os apóstolos anunciaram Jesus depois de sua ressurreição e como surgiram comunidades de cristãos em várias cidades (Atos 2; 11:19-26). Jerusalém e Antioquia aparecem nesse relato; mais tarde, cidades como Roma, Alexandria e Constantinopla se tornaram importantes centros da igreja. A Igreja Ortodoxa entende que preserva a fé ensinada pelos apóstolos. Isso não quer dizer, porém, que já existisse no primeiro século uma instituição com o nome e a organização que ela tem hoje.
Nos primeiros séculos, os cristãos enfrentaram períodos de perseguição no Império Romano. Mesmo assim, a fé se espalhou. Quando surgiam disputas sobre o que os cristãos deveriam ensinar, líderes da igreja se reuniam pra examiná-las. Atos 15 mostra os apóstolos e os presbíteros reunidos em Jerusalém pra resolver uma questão que afetava várias comunidades.
A partir do século IV, essas reuniões passaram a acontecer em escala muito maior. Em 313, o imperador Constantino e Licínio concederam liberdade de culto aos cristãos. Em 325, Constantino convocou o Concílio de Niceia, que rejeitou o ensino de que o Filho de Deus era uma criatura. Outros concílios trataram de questões sobre a Trindade e sobre quem é Jesus Cristo. O credo ligado aos concílios de Niceia e Constantinopla continua sendo uma importante declaração de fé pra Igreja Ortodoxa e pra muitas outras igrejas cristãs.
Então, por que veio a separação? As igrejas do Oriente, que usavam principalmente o grego, e as do Ocidente, onde predominava o latim, foram se distanciando. A questão mais difícil dizia respeito à autoridade do bispo de Roma, o papa. No Oriente, reconhecia-se a importância histórica de Roma, mas não a ideia de que seu bispo tivesse autoridade sobre toda a igreja. Também houve uma disputa sobre a expressão *filioque*, acrescentada no Ocidente ao credo pra dizer que o Espírito Santo procede “do Pai e do Filho”. Os orientais se opunham tanto à mudança feita no credo quanto ao ensino envolvido nela.
O ano de 1054 é lembrado como o marco do chamado Grande Cisma, quando representantes de Roma e Constantinopla trocaram condenações. Mas a separação não aconteceu inteira naquele dia: ela vinha se formando havia séculos. Em 1204, cruzados ocidentais saquearam Constantinopla, o que tornou a reconciliação ainda mais difícil.
Em 1453, Constantinopla foi conquistada pelos otomanos. As igrejas ortodoxas continuaram existindo, inclusive em regiões sob domínio muçulmano. Ao mesmo tempo, a Ortodoxia já havia se espalhado entre povos eslavos, especialmente na Rússia. Moscou ganhou grande importância, mas não se tornou simplesmente uma nova sede de governo pra todas as igrejas ortodoxas.
Hoje, a Igreja Ortodoxa é uma comunhão de igrejas, como a grega, a russa e a sérvia. Elas compartilham a fé e a vida sacramental, mas não têm um líder único com a autoridade que o papa exerce na Igreja Católica. O patriarca de Constantinopla recebe uma posição de honra chamada “primeiro entre iguais”; ele não governa sozinho as demais igrejas.
Há ainda uma distinção que evita muita confusão. As igrejas ortodoxas copta, armênia e outras chamadas frequentemente de ortodoxas orientais se separaram das igrejas que aceitaram o Concílio de Calcedônia, no século V. Elas não fazem parte da mesma comunhão da Igreja Ortodoxa grega ou russa.
A história da Igreja Ortodoxa, portanto, não é a história de uma igreja fundada depois da separação de Roma. É a história de comunidades cristãs antigas que preservaram sua tradição no Oriente e que, após um longo afastamento, deixaram de estar em comunhão com a Igreja Católica. Cristãos de outras tradições podem discordar de algumas doutrinas e práticas ortodoxas. Ainda assim, conhecer essa história ajuda a entender por que a Igreja Ortodoxa se vê como herdeira da fé dos primeiros cristãos — e por que a divisão entre Oriente e Ocidente permanece até hoje.