A resposta depende do que queremos dizer com “Igreja Católica”. Se estamos falando da comunidade de seguidores de Jesus, sua história começa no primeiro século. Depois da ressurreição e da ascensão de Cristo, o Espírito Santo veio sobre os discípulos no dia de Pentecostes, e eles passaram a anunciar publicamente o evangelho (Atos 2:1-41). Mas aquela comunidade ainda não tinha todas as doutrinas, práticas e formas de governo que hoje caracterizam a Igreja Católica Romana. Elas foram se desenvolvendo ao longo dos séculos.
Isso também ajuda a entender por que católicos e protestantes contam essa história de maneiras diferentes. Os católicos veem sua igreja como a continuação daquela comunidade fundada por Cristo, conduzida pelos bispos e, de modo especial, pelo bispo de Roma. Os protestantes também reconhecem suas raízes nos primeiros cristãos, mas não entendem que a igreja descrita no Novo Testamento já tivesse um papa ou que todas as doutrinas católicas posteriores fizessem parte do ensino dos apóstolos.
Nos primeiros três séculos, os cristãos viviam espalhados pelo Império Romano. Formavam comunidades locais, ensinavam a mensagem de Jesus, celebravam a Ceia do Senhor e, em alguns períodos e lugares, enfrentavam perseguição. Também precisavam responder a perguntas difíceis: quem é Jesus? Como ele se relaciona com o Pai? Que ensinamentos estavam de acordo com a fé recebida dos apóstolos?
Uma grande mudança veio em 313 d.C., quando o imperador Constantino e Licínio concederam liberdade de culto aos cristãos. Isso não fundou a Igreja Católica: as comunidades cristãs já existiam havia quase trezentos anos. Mas a nova situação permitiu que a igreja crescesse publicamente e passasse a ter uma relação cada vez mais próxima com o poder político. Em 325, o Concílio de Niceia tratou de uma controvérsia sobre Jesus e afirmou que o Filho não era uma criatura, mas compartilhava a natureza divina do Pai. Esse ensinamento é reconhecido tanto por católicos quanto por muitos protestantes.
Nesse longo período, o bispo de Roma ganhou importância. Roma era uma cidade central do império, e a igreja dali era associada aos apóstolos Pedro e Paulo. Com o tempo, seus bispos passaram a reivindicar uma autoridade mais ampla sobre as outras igrejas. Os católicos relacionam essa autoridade às palavras de Jesus a Pedro em Mateus 16:18-19. Protestantes, por sua vez, questionam se essa passagem estabelece o papado tal como ele veio a existir. Portanto, é mais preciso dizer que o papado se desenvolveu gradualmente, e não que surgiu pronto numa data específica.
Durante a Idade Média, a igreja do Ocidente ampliou muito sua presença na sociedade. Mosteiros ajudaram a preservar livros, ensinar e levar o cristianismo a outras regiões. Ao mesmo tempo, a ligação entre líderes religiosos e governantes trouxe disputas por poder e graves abusos. A teologia católica também continuou a ser formulada. Por exemplo, a maneira oficial de explicar a presença de Cristo no pão e no vinho da Eucaristia foi definida muitos séculos depois do Novo Testamento.
Nem todos os cristãos seguiram juntos nesse caminho. As diferenças entre as igrejas do Ocidente e do Oriente, que envolviam autoridade, política e questões doutrinárias, acabaram levando à separação tradicionalmente associada ao ano de 1054. A partir daí, a Igreja Católica Romana e as igrejas ortodoxas orientais seguiram caminhos distintos.
Outra grande mudança ocorreu no século XVI. Reformadores como Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio e João Calvino criticaram abusos e questionaram ensinamentos da Igreja Católica à luz das Escrituras. Um dos pontos de conflito foi a pregação das indulgências, ligada, em certos casos, à arrecadação de dinheiro. Não se tratava, na doutrina oficial católica, de simplesmente “vender o perdão de Deus”, mas os abusos em torno dessa prática causaram forte indignação. As divergências foram além disso: incluíram a autoridade da Bíblia e da tradição da igreja, a salvação, a Ceia do Senhor e o papel do papa.
A Reforma deu origem a várias igrejas protestantes. A Igreja Católica respondeu, entre outras medidas, com o Concílio de Trento (1545–1563), que combateu abusos internos e reafirmou doutrinas rejeitadas pelos reformadores. Essa divisão entre católicos e protestantes permanece até hoje.
Nos tempos mais recentes, dois concílios tiveram grande influência. O Vaticano I, no século XIX, definiu em quais condições específicas um ensinamento do papa sobre fé e moral é considerado infalível pela Igreja Católica — não significa que, para os católicos, tudo o que o papa diz esteja livre de erro. Já o Vaticano II, no século XX, promoveu mudanças na vida da igreja e incentivou o diálogo com outros cristãos e com pessoas de outras religiões.
Assim, a Igreja Católica Romana de hoje é resultado de uma história de quase dois mil anos. Ela se entende como continuidade da igreja dos apóstolos; os protestantes reconhecem que compartilham com ela parte dessa história e ensinamentos centrais, como a fé na Trindade e na ressurreição de Jesus, mas discordam de algumas doutrinas e da autoridade atribuída ao papa. Conhecer essa diferença é importante: ela permite reconhecer as raízes cristãs comuns sem fingir que as divergências surgidas ao longo da história não existem.