Gematria é a prática de dar um valor numérico às letras de uma palavra e somar esses valores. No hebraico e no grego antigos, letras também podiam representar números. Por isso, era possível calcular o “número” de um nome. A questão é o que fazer com o resultado: ele pode ajudar a entender uma passagem bíblica ou revelar um significado escondido?
Um exemplo mostra tanto o interesse quanto o limite desse método. Em hebraico, as letras do nome Davi somam 14. Mateus organiza a genealogia de Jesus em três grupos de 14 gerações (Mateus 1:17). Como ele apresenta Jesus como descendente de Davi logo no começo do evangelho, alguns estudiosos entendem essa repetição do 14 como mais uma maneira de destacar essa ligação. É uma possibilidade interessante, mas Mateus não diz expressamente que escolheu o número por causa do valor das letras do nome Davi.
O caso mais conhecido está em Apocalipse 13:18. Ali, o leitor é chamado a calcular o número da besta: 666. Isso torna razoável investigar se o número corresponde a um nome. Uma interpretação conhecida o relaciona a Nero César quando seu nome é escrito com letras hebraicas. Há argumentos a favor dessa leitura, mas o texto não identifica Nero diretamente. Além disso, outros nomes também podem ser ajustados pra chegar a 666. Por isso, o número não autoriza ninguém a apontar com certeza uma pessoa atual como a besta.
A gematria também já foi usada de maneiras bem menos firmes. O nome de Eliezer, servo de Abraão, soma 318 em hebraico, e Gênesis 14:14 menciona 318 homens de Abraão. A coincidência chama a atenção, mas o texto não diz que Eliezer representava aqueles homens nem que a soma revela uma mensagem escondida.
Então, a gematria pode ajudar a perceber possíveis jogos de números que faziam sentido no mundo antigo, mas não é uma chave secreta pra interpretar a Bíblia. O mais seguro é começar pelo que a passagem diz, considerar seu contexto e distinguir aquilo que o autor bíblico explicou daquilo que nós apenas supomos.